Carnaval de 69
Encontro com Leila Diniz em Paraty
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Nunca fui muito carnavalesco. Até os 13 anos, julgava-me vagamente ridículo por pular sozinho feito um cabrito enlouquecido; episódios de sexualidade precoce, que eu lembre, só o descrito no meu conto Botõezinhos (encaminhado a Notibras). A partir dos 14 anos, carnaval era sinônimo de paquera; quando tinha sorte, descolava uma namoradinha por algumas horas, rolavam uns beijinhos, toques recíprocos, coisa pouca… A partir dos 17 anos, a coisa mudou.
Minha família tinha casa de veraneio em Friburgo, e eu tinha carro. Se estivesse namorando, iria acampar com a moça e transar adoidado; se estivesse sozinho, subia a serra. E aconteciam coisas interessantes.
Um exemplo, entre muitos. Estava jantando em um restaurante junto à porta de vidro, quando duas moças me encararam do lado de fora e sorriram, convidativas. Convidei-as a entrar, não quiseram. Paguei e saí do restaurante, encontrei-as, nos beijamos e fomos para minha casa. Algo inesquecível, minha primeira festinha a três.
E então veio o carnaval de 69; apesar do nome sugestivo, o episódio pouco teve de erótico. Alguns amigos e eu fomos passar o carnaval em Paraty. Ficamos, sem pagar um tostão, em uma casa, cujo proprietário conhecia alguém do nosso grupo. Saímos para ver os blocos e terminamos em uma espécie de salão, onde ela reinava, soberana.
Ela era Leila Diniz. Nada produzida, de short e blusinha, linda! Em transe carnavalesco, organizava a tigrada no cantar de marchinhas e sambas-enredos. Ignorava as paqueras, os olhares pidões que a machaiada lhe dirigia; eu babava na gravata que não usava.
Diga-se que o Pasquim surgiria apenas meses depois, Leila, uma atriz, ainda não era nacionalmente conhecida, a musa do jornal. Era apenas uma bela mulher possuída pelo espírito momesco.
Lá pelas tantas, reparei em uma jovem meio feia que me sorria. Escoteiro do sexo, sempre alerta, sorri de volta. Me aproximei, começamos a conversar e saímos rapidinho. Fomos pra uma praia deserta e transamos. Não na areia, em meio à natureza, nossos corpos nus beijados pelas ondas do mar; foi dentro do carro mesmo. Não lembro se foi bom ou ruim, estava bebaço e, além do mais, minha memória virou uma lama. Depois voltamos, deixei-a na cidade e me juntei aos amigos.
Bem mais tarde, o dono da casa nos convidou a jantar. Havia uma mulher a seu lado, minha parceira de trepada. Ele nos apresentou:
– Minha companheira.
-Muito prazer – falou-me a feia da tarde, com um sorriso discreto.
– Mu…muito prazer – balbuciei.
O resto da estadia foi nesse padrão. Cantorias com Leila Diniz, paqueras e ocasionais transas. Mas não com a feinha da tarde, fugia dela como o diabo foge da cruz. Não tinha medo de levar uma chifrada do corno, mas ele expulsaria nosso grupo… Então, fingia não perceber os olhares convidativos da moçoila.
Depois do carnaval de 69, as coisas se precipitaram em minha vida e a transformaram para sempre. Amarguei uma prisão política – felizmente de poucos dias, um policial se infiltrara no grupo em que eu havia militado, denunciou todo mundo, mas não a mim, que havia me afastado antes, por isso, iria responder em liberdade –, fui “aconselhado” a sair de Niterói, ofereceram-me um emprego em São Paulo, na Abril Cultural, aceitei de cara, estou na capital paulista até hoje.
Meu último episódio com o carnaval aconteceu no ano seguinte. Eu saíra da prisão, na ilha das Flores, com o corte de cabelo de um prisioneiro político, quase a zero. Na Abril Cultural, deixei o cabelo e a barba crescerem, livres. Por algum motivo, cheguei a Niterói pouco antes do carnaval, de barba e cabelão.
Estava em um bar, cervejando com os amigos, quando um cara se aproximou e me disse:
– Porra, bicho, cê tá a cara do Tiradentes! Seguinte, topa ser destaque da Viradouro no carnaval, personificando Tiradentes? Vai ser divertido, muita mulher, muita birita… cê vai gostar!
(Guglei, o desfile da Unidos da Viradouro em 1970 teve o tema Quilombo dos Palmares, havia lugar no enredo para um destaque de Tiradentes.)
Eu, imbecil de carteirinha, que zombava dos sambas-enredos atribuindo-lhes o refrão “Que beleza/O tempo da escravidão/ Que tempo bão!”, ri e não aceitei. Mó burrada.
Com isso, perdi a chance de acompanhar de perto a explosão de criatividade popular resumida em uma escola de samba. De seguir o trabalho dos compositores do samba, das costureiras, bordadeiras, pintores, douradores, de todos e todas que se entregam por meses a um sonho, até seus esforços convergirem em uma hora de desfile.
Resta-me apenas acrescentar mais uma passagem a meu conto-crônica-poema Eu já, publicado por Notibras:
“Eu já fui convidado pra ser destaque no carnaval. Seria a chance de acompanhar de perto a usina de criatividade que é uma escola de samba.
Mas esse tempo passou, hoje me convidam mais não”