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Brincando com fogo

Engrenagem da 3ª Guerra fica azeitada com socorro à Ucrânia

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Foto/Imagem:
Djamel Labidi/Via Pátria Latina - Foto Reprodução

Os Estados Unidos convocaram para uma reunião em sua base militar de Ramstein, na Alemanha, 40 países ocidentais. Foi todo o Ocidente que lá compareceu para fornecer cada vez mais armas à Ucrânia. A História pode vir a lembrar esta data, 26 de abril, como o início da Terceira Guerra Mundial, se tal acontecer e se a humanidade sobreviver a um verdadeiro apocalipse.

Podemos de fato falar de não-beligerância, mostrando hipocrisia, quando vemos o esforço de guerra dos EUA – 30 bilhões de dólares previstos – e que envolvem cada vez mais os Estados ocidentais, assim como o tipo de armas fornecidas, cada vez mais pesadas, cada vez mais sofisticadas.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, usando uma frase do presidente Roosevelt na véspera da entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, justificou esse esforço militar para “ajudar a fortalecer o arsenal da democracia ucraniana”. Mas ele revela, ao mesmo tempo, sem qualquer outra precaução, que o objetivo deste encontro, assim como o da guerra, é “enfraquecer” a Rússia de forma duradoura.

Na mesma linha, e desde o início da guerra, aliás, em 24 de fevereiro, o presidente Joe Biden anunciou “sanções devastadoras” contra a Rússia e em 7 de abril prometeu que “essas sanções apagariam quinze anos de progresso econômico da Rússia”. Em suma, constata-se que desde o início, os EUA encaram a guerra na Ucrânia como uma guerra contra a Rússia.

Uma virada perigosa
Com esta reunião, uma mudança perigosa para todos é tomada resolutamente pelos Estados Unidos, que se encaminham para uma guerra por procuração de 40 Estados, todo o Ocidente, contra a Rússia. Os EUA ainda especificam que esses 40 Estados manterão contato e se reunirão regularmente para avaliar a situação militar. Ao fazê-lo, os Estados Unidos têm consciência que, desse modo, dão de fato à guerra da Ucrânia o contorno de uma confrontação mundial.

Já em 18 de janeiro de 2017, no Fórum Econômico Mundial de Davos, Joe Biden, então vice-presidente dos EUA, acusava Putin de “ameaçar a ordem econômica liberal internacional”, isto é, a ordem dos Estados Unidos, o domínio sem partilha dos EUA sobre o mundo.

Atualmente, na imprensa ocidental, vozes autoritárias especificam que a derrota da Ucrânia seria a derrota da hegemonia capitalista. Notemos de passagem que as expressões enganosas de apenas alguns meses atrás da “comunidade internacional” desapareceram do vocabulário ocidental para dar lugar à palavra “ocidente”.

Pelo seu lado, a Rússia, ela também, designa claramente o que está em jogo nesta guerra, quando fala em pôr em questão a hegemonia ocidental. Agiu assim mesmo antes dos EUA, ao dizer que os americanos não se preocupam com a Ucrânia nem com a “da defesa do direito internacional que não cessaram de violar”, mas que o seu objetivo era uma guerra contra a Rússia por procuração.

A história nos ensina que, até agora, quando duas grandes potências se enfrentaram, uma delas foi destruída ou ambas foram destruídas, com poucas exceções. Isso tem sido verdade desde a Guerra do Peloponeso entre Esparta e Atenas até às duas guerras mundiais. Mas desta vez, na era nuclear, é o mundo que será destruído, a humanidade que provavelmente desaparecerá. Esparta dominou por 100 anos o então mundo civilizado. Atenas surgiu e, uma vez que se tornou uma potência em todos os níveis, econômico, cultural, militar, pediu mais espaço, o lugar que agora era seu lugar de direito. A guerra era inevitável.

Uma engrenagem mortal
A história também nos ensina que quando uma potência domina o mundo por muito tempo, como é o caso dos Estados Unidos, mas por mais tempo ainda, ela experimenta o desafio, a contestação ao seu domínio, a possibilidade do seu declínio, como uma agressão insuportável. Ela o sente de maneira dolorosa, agonizante, também com o sentimento da ingratidão das potências ascendentes, num mundo que estão convencidos de terem construído, moldado, de lhe terem dado tudo: sua tecnologia, sua cultura e até seus valores.

Isto fecha a sua percepção às novas realidades. Pior: torna-se praticamente impossível para eles aceitarem essas realidades. A mudança, a convulsão da ordem estabelecida são vivenciadas como uma ameaça existencial. O seu domínio é percebido como uma condição da sua própria sobrevivência. Daí o caráter extremo, tanto verbal quanto material, que pode ter o confronto com os poderes ascendentes, aqueles que os contestam, a total impossibilidade de levar em conta o ponto de vista do outro, porque tudo o que é dito pelo outro, tudo o que ele faz, parece ser uma ameaça.

A vontade de compromisso não existe. Necessita-se vencer. Existe o mecanismo de uma escalada contínua, o da escalada atual entre os EUA e a Rússia. Qualquer recuo do outro é interpretado como uma fraqueza e, portanto, um incentivo à escalada, ao mesmo tempo que qualquer sucesso do outro é percebido como um perigo. Cria-se assim um motivo para ir ainda mais longe na escalada. Uma engrenagem mortal.

Do lado da Rússia o mesmo mecanismo é posto em prática, mesmo que por razões diferentes. A obsessão hegemônica dos EUA desde o fim da Guerra Fria, com a Otan a cercá-la nas suas fronteiras, depois a estabelecer-se diretamente na Ucrânia, levou a Rússia a ter, também, mas por um outro processo, a sensação de que a sua própria existência estava ameaçada. Ela também vê o conflito atual como uma questão de sobrevivência. Isso é repetido por Vladimir Putin.

Todos os ingredientes juntam-se para uma explosão que só pode ser grande e afetar a própria existência do outro. Os Estados Unidos não precisam, pelo menos atualmente, de recorrer a armas nucleares, pois têm outras armas de destruição em massa, principalmente econômicas, e que, acima de tudo, podem fazer os ucranianos travar uma guerra por procuração, que estão determinados a manter, a alimentar financeira e militarmente para que dure. É este o cálculo.

Mas nunca se joga completamente só. A Rússia não pode aceitar essa diferença inteiramente teórica e cada vez mais formal entre beligerância e não beligerância, especialmente porque o objetivo da guerra e o inimigo estão claramente definidos pelos EUA: a Rússia. Os EUA dizem que não fazem a guerra contra a Rússia na Ucrânia. Mas é uma questão de palavras. O que é certo é que para a Rússia, ela não faz a guerra na Ucrânia contra os EUA, mas que os EUA a fazem quase diretamente na Ucrânia contra a Rússia. Aliás proclamam-no. As situações são totalmente diferentes: se os EUA podem fazer a guerra contra a Rússia por procuração, a Rússia não pode agir do mesmo jeito.

Não tem outra solução senão fazê-lo diretamente nos Estados Unidos, se a ação dos Estados Unidos provar constituir para eles uma ameaça direta, estratégica e existencial. É isso que torna a situação repleta de perigos terríveis para o mundo.

“Vamos usá-los se necessário”
Ao designarem, na reunião de Ramstein, aos 40 países ocidentais a Rússia como o inimigo, como o objetivo desta guerra na Ucrânia, os EUA mudaram o seu significado, inclusive aos olhos de alguns países europeus. Eles impuseram ao conflito a sua visão, a sua direção e o agora provável risco de um confronto direto.

A reação de Putin, no dia 27 de abril, perante a Duma, em São Petersburgo, quis ter em conta este risco claramente. Ele declarou que se houver a interferência de um “elemento externo”, e que a Rússia se sinta ameaçada de maneira vital, a sua resposta será “rápida e fulminante”. Mais uma vez apontou que a Rússia tem armas estratégicas que os Estados Unidos não têm: “Nós temos todos os instrumentos para isso. Daquelas que ninguém pode gabar-se de possuir”. E, acima de tudo, sobre essas armas, ele especifica: “Não nos contentamos apenas em nos vangloriar, vamos utiliza-las se tal se tornar necessário”, acrescentando que “todas as decisões sobre isso já foram tomadas”.

A gravidade da situação está nas palavras “vamos usá-las”. Até agora, a regra implícita para todos foi que a dissuasão nuclear, ou seja, o princípio estratégico de que as armas nucleares não podem ser usadas, daí o termo “dissuasão”, porque o seu uso significaria aniquilação mútua. Agora estamos passando para outra situação, para algo diferente do que o mundo experimentou até agora, o risco, não mais teórico, mas real, de uma guerra nuclear. De teórico, o risco de uma guerra nuclear tornou-se real. Isso foi resumido num comunicado em 25 de abril do chanceler russo Sergei Lavrov.

À gravidade da situação, os americanos respondem com casualidade, ironia e até escárnio. Para o presidente Joe Biden, em declarações em 28 de abril “é uma reação de desespero da Rússia diante do seu fracasso na Ucrânia”. Para a mídia dos Estados Unidos, o risco de guerra nuclear é desde o início apenas “propaganda”, “blefe”, tentativas de assustar o ocidente, de intimidá-lo. O tom é assim em todos os meios de comunicação ocidentais que vão na mesma direção numa quase total unanimidade.

Pelo contrário, na mídia russa, o tom é diferente, grave. Em 30 de abril, o canal “Rússia 1”, indicou que a gravidade da situação não é negada ou subestimada. A possibilidade de uma guerra nuclear é considerada real. As pessoas falam sobre isso com seriedade, e até com uma espécie de fatalismo, como se quisessem preparar a opinião pública para essa situação.

Margarita Simonyan, a diretora do canal de informação Rússia Today, afirma: “A ideia de que tudo terminará com um ataque nuclear parece-me mais provável do que qualquer outro cenário”. Entrando nos detalhes, o discurso é concreto: explica a vantagem que a Rússia tem atualmente em termos de tecnologia militar e armas nucleares, com seus mísseis hipersónicos que chegam invisíveis ao inimigo, e com o enorme míssil balístico Sarmat, também invisível, que pode destruir sozinho um país inteiro. A sua velocidade é de “relâmpago”: 106 segundos para chegar a Berlim, 200 a Paris, 206 segundos a Londres, o que não permite que o adversário reaja. “Ninguém sobreviveria a isso”, diz um participante do programa. “Ninguém em todo o planeta”, acentua a jornalista. O diálogo é alucinante.

As imagens deste diálogo num programa da TV russa são transmitidas, coisa rara, na TV francesa. Os animadores franceses riem-se disto. Eles competem pela zombaria em relação aos russos. A atmosfera é surreal. Num programa da TV francesa, uma jovem ucraniana, que faz a guerra em Paris, quase acusa os franceses de serem covardes e “de terem medo de Putin” e da guerra nuclear. Um velho general aposentado diz que a velocidade dos mísseis russos não deve impressionar, e que um míssil a mais ou a menos não muda o assunto, já que cada lado tem meios para aniquilar o outro. Todos veem neste diálogo na TV russa a prova da loucura russa.

Mas, para mim, lembra-me a história de um louco que sobe ao muro do seu hospital para ver o lado de fora e vê um homem passando na rua. Ele então grita para o transeunte: “Quantos de vocês estão aí?”

Onde estão os pacifistas?
O que é terrivelmente preocupante, mais do que tudo, é a forma como os Estados Unidos, e por trás deles os canais de opinião ocidental, minimizam ou querem minimizar a extrema gravidade da situação, esta escalada que nos arrasta irremediavelmente para uma terceira guerra mundial, rumo a uma guerra nuclear. É a cegueira como é o caso dos impérios, especialmente os que estão em declínio, quando sentem o seu domínio desafiado, como a Rússia está fazendo atualmente ao declarar sem rodeios que quer desafiar a ordem mundial existente.

A reação dos Estados Unidos não tem nuances. O desafiante da ordem reinante é desprezado e subestimado. Sobre o perigo nuclear, pode-se notar que a atitude russa é diferente da dos Estados Unidos. Enquanto a Rússia informa a sua opinião pública com franqueza, os EUA negam o perigo.

Trata-se então de negar, de subestimar a situação ou é uma vontade deliberada de querer anestesiar a opinião pública, de querer impedir a sua intervenção, numa palavra de mantê-la alheia à situação real, a esta escalada sem sentido a que os EUA arrastam os países ocidentais. Desde a invenção das armas nucleares, independentemente das crises que o mundo experimentou durante a Guerra Fria, a situação nunca foi tão grave. E já não existem, ao que parece, as forças populares que antes eram um obstáculo à guerra e ao armamento nuclear, tanto no Ocidente como no resto do mundo.

Nos anos 70 e 80 houve um poderoso movimento de paz. As pessoas mobilizavam-se, aos milhões, contra a implantação de mísseis na Europa, formavam cadeias humanas de várias centenas de quilômetros entre os países europeus para se oporem à guerra. As elites intelectuais e científicas, os estudiosos, os artistas publicaram declarações contra a guerra. Titulares do Prêmio Nobel formaram grupos para analisar as consequências de um holocausto nuclear e descrever o seu horror. A opinião pública foi regularmente informada. Não é mais o caso. Onde estão os pacifistas do passado, dos tempos da Guerra Fria?

Estamos à beira de uma guerra nuclear, e parece que ninguém se importa! A razão, as razões? No ocidente, as pessoas parecem estar sujeitas a uma propaganda de guerra impressionante e paralisante. Noutras partes do mundo, acredita-se que seja uma guerra limitada à Europa e aos Estados Unidos. “Os mísseis podem chegar até nós?”, alguém inocentemente me perguntou. Não entendem as consequências globais de uma guerra nuclear, mesmo limitada a uma parte do mundo. Poucos sabem que o inverno nuclear se espalhará por toda parte, que a guerra nuclear é, por definição, total, que pode significar o fim do mundo, o fim da humanidade. Nenhum jornal, nenhum canal, nenhum site falam sobre isto, diz ou descreve os horrores da guerra nuclear.

Quem será capaz de acordar a opinião pública mundial? O que fazer? Quem dará o alerta? Quem pode parar esta engrenagem mortal? Que personalidades, que homens de boa vontade, que partidos, que governos, que Estados? Temos que parar com isso. É necessário que “o povo”, que os povos, “se movam”.

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