Abundância de ideias
Entre a engenharia e a literatura
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A mente daquele homem era mais fértil do que terra roxa, o que fazia dele um sério candidato a escritor. E vontade não lhe faltava, apesar da profissão tão dessemelhante que escolhera por conta de ascensão social: engenharia civil. No entanto, havia um problema que o afligia, já que não conseguia refletir na escrita suas ideias. E não que desconhecesse as regras gramaticais, as concordâncias verbais e nominais, as conjugações adequadas, a escolha de artigos, objetos diretos e indiretos. Era simples bloqueio, como dizia Eunice, a esposa.
— Sérgio, meu amor, você precisa relaxar para liberar o pensamento.
— Quando tento começar, só me chegam números, números e mais uma penca de números.
A despeito da ausência de traquejo para a literatura, anotava as ideias em cadernos e mais cadernos, como se fossem atas de reuniões e não contos, crônicas, poemas ou romances. Tinha receio de tantas ideias serem apagadas da memória. Além do mais, carregava a esperança de algum dia o talento lhe chegar, mesmo que tardiamente. Que fosse na velhice, não importava, desde que a tempo de transformar tudo aquilo em ao menos um livro.
Sérgio enricou, é verdade, a ponto de, aos 60 anos, poder escolher os projetos que mais lhe davam prazer. Nada mais de construções sem grandes desafios. Queria levantar edifícios que fossem apreciados por gerações. E parece que estava no caminho certo, tamanho o número de bajuladores que conseguiu juntar ao seu redor.
Aos 80, decidiu se aposentar. E foi aí que, sentado ao lado de Eunice, observou aquela pilha de cadernos sobre a estante.
— É, Eunice, tem gente que nasce com o dom para literatura, enquanto eu nasci com o talento para ganhar dinheiro.
— Não diga isso. Você ainda pode tentar.
— Tentar? Como? Depois de tantos livros sonhados e jamais escritos?
— Quem sabe você não consiga?
— Não, meu amor. O que me resta é apenas a intuição de que um dia todas essas ideias sejam lançadas em uma grande fogueira. Talvez devamos fazer isso na próxima festa junina. Faz tanto frio aqui em Brasília. Pelo menos servirão para nos aquecer um pouco.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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