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Escolhas difíceis

Entre amor, viagem, carreira e o medo de escolher

Publicado

Autor/Imagem:
Fabiana Saka / Francisco Filippino

Elisa estava sentada na cama, acompanhando as mensagens que não paravam de chegar no grupo das amigas.

“Olha esse hotel!”

“Gente, e essa praia?!”

“Eu quero ir aqui!”

Fotos de Cancún se sucediam na tela: mar azul, areia branca, piscinas, restaurantes, passeios de barco. Em seguida começaram a discutir datas, preços de passagens e quantos dias conseguiriam ficar.

Elisa sorria enquanto passava os olhos pelas mensagens. Queria ir. Talvez aquela fosse a última oportunidade de fazer uma viagem assim com todas juntas. Depois da formatura viriam empregos, compromissos, horários diferentes. A vida acontecendo. Quem sabia quando conseguiriam novamente conciliar a agenda de todas?

O celular vibrou outra vez.

Dessa vez era Pedro.

— Posso te ligar de vídeo?

Ela respondeu que sim.

Segundos depois, viu a imagem dele.

Conversaram sobre coisas banais por algum tempo, até que Pedro fez uma pausa.

— Elisa, posso te perguntar uma coisa?

Ela já imaginava o que vinha.

— Pode.

— O que a gente está fazendo?

Elisa ficou em silêncio.

— Como assim?

— Você sabe como assim. Eu gosto de você. Acho que você também gosta de mim. Mas estamos nisso há meses e eu não sei se você quer que isso seja alguma coisa ou não.

Ela desviou os olhos do celular e encarou o notebook aberto sobre a escrivaninha. Na caixa de entrada estava o e-mail confirmando a bolsa de estudos no exterior. Logo abaixo, uma mensagem da amiga de sua mãe perguntava quando poderiam conversar sobre a vaga na empresa.

— Eu gosto de você, Pedro. Você sabe.

— Eu sei. Mas não foi isso que eu te perguntei.

Pedro nunca a pressionava. Talvez por isso aquela pergunta a incomodasse tanto. Ele gostava dela, respeitava seu espaço e esperava havia meses que Elisa decidisse se queria transformar aquela relação sem compromisso em alguma coisa maior.

Ela também gostava dele. Muito. Mas sempre que imaginava um namoro sério, pensava em tudo o que talvez estivesse deixando de viver.

— Podemos conversar sobre isso depois?

Houve alguns segundos de silêncio.

— Podemos.

Depois que desligou, Elisa voltou ao grupo das amigas.

Mais fotografias de Cancún.

Olhou para o computador. A bolsa de estudos. A vaga de emprego.

Olhou novamente para o celular. Pedro.

Durante anos, Elisa imaginara que seria maravilhoso chegar ao fim da faculdade e finalmente poder escolher o que faria da própria vida. Agora que esse momento havia chegado, descobria que tantas possibilidades podiam ser mais angustiantes do que a falta delas.

Escolher uma parecia significar perder todas as outras.

Levantou-se da cama.

Precisava sair de casa. Pensar em outra coisa. Talvez comprar alguma coisa.

Foi ao shopping.

Na loja de roupas que costumava frequentar, caminhou entre as araras tentando se distrair. Pegou um vestido bonito e imaginou-se usando-o num jantar com Pedro. Levou-o até o espelho, colocou-o diante do corpo e tornou a pendurá-lo.

Mais adiante encontrou um conjunto discreto e elegante. Serviria perfeitamente para uma entrevista de emprego. Experimentou o blazer, observou-se por alguns segundos e desistiu.

Na seção de moda praia, um biquíni azul chamou sua atenção. Pensou imediatamente nas amigas, no mar do Caribe, nas fotografias que fariam juntas.

Segurou-o por algum tempo.

Depois o devolveu ao lugar.

Saiu da loja sem comprar nada.

Quando chegou em casa, sua mãe estava na cozinha.

— Encontrou alguma coisa?

Elisa colocou a bolsa sobre uma cadeira.

— Encontrei um monte de coisas.

— E comprou o quê?

— Nada.

A mãe a observou.

— Não consegui escolher.

A resposta pareceu pequena demais para explicar o que sentia.

Elisa sentou-se à mesa.

— Mãe, eu não sei o que fazer.

E então falou. Contou sobre Pedro, embora a mãe já soubesse boa parte da história. Falou da bolsa de estudos, do medo de passar algum tempo fora do país e depois encontrar dificuldades para entrar no mercado de trabalho. Falou da vaga na empresa, segura, concreta, esperando por ela. Falou de Cancún e da possibilidade de talvez nunca mais conseguir viajar com todas as amigas reunidas daquele jeito.

— Parece que, quando escolho uma coisa, perco todas as outras.

A mãe permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Mas é exatamente isso que acontece.

Elisa ergueu os olhos, surpresa.

Esperava ouvir que conseguiria conciliar tudo. Que haveria um jeito. Que bastava se organizar.

— Como assim?

— Toda escolha fecha alguns caminhos, filha. Esse é um dos motivos pelos quais escolher às vezes dói.

Elisa apoiou os braços sobre a mesa.

— Então como eu vou saber se estou escolhendo certo?

— Talvez você não saiba.

A resposta a incomodou ainda mais.

A mãe sorriu.

— Quando eu era jovem, ouvi uma história sobre uma criança que se sentou debaixo de uma árvore carregada de frutos. Eram tantos e pareciam todos tão bons que ela não conseguia escolher qual colher. Passou horas tentando descobrir qual seria o mais doce e saboroso. Quando finalmente decidiu, os frutos já estavam estragados.

Elisa não respondeu.

— Você está tentando descobrir qual escolha vai permitir que você ganhe tudo sem abrir mão de nada. Essa escolha não existe.

A mãe segurou sua mão.

— Escolha um destino que lhe apeteça e viva a sua história. Depois você descobrirá o sabor do fruto que escolheu. As pessoas não vão te esperar pra sempre.

Naquela noite, Elisa voltou para o quarto.

A fotografia de Cancún ainda estava aberta. Havia novas mensagens no grupo das amigas.

Pedro também havia escrito.

“Desculpa se pressionei você.”

Ela leu a mensagem duas vezes e colocou o celular sobre a cama.

Abriu o notebook.

O e-mail da bolsa permanecia ali.

Durante alguns minutos, sentiu novamente o velho impulso de imaginar tudo o que poderia acontecer. E se fosse embora e perdesse Pedro? E se recusasse o emprego e depois se arrependesse? E se as amigas fizessem aquela viagem sem ela e, anos mais tarde, aquela se tornasse uma das histórias das quais ela jamais teria participado?

Percebeu que estava fazendo outra vez a mesma coisa.

Tentando viver antecipadamente todas as vidas possíveis.

Respirou fundo.

Então respondeu ao e-mail.

Aceitou a bolsa.

Depois ficou algum tempo imóvel diante da tela.

Nada extraordinário aconteceu.

Não sentiu imediatamente a certeza de ter escolhido certo. Continuava querendo viajar com as amigas. Continuava gostando de Pedro. Continuava pensando na segurança daquele emprego.

A diferença era que, pela primeira vez, Elisa compreendia que não precisava deixar de desejar os outros caminhos para seguir por um deles.

Nos dias seguintes, começou a organizar a viagem. Documentos, passagem, roupas, despedidas.

Também conversou com Pedro.

Não prometeu que tudo ficaria bem entre eles. Ele também não prometeu esperar.

Abraçaram-se longamente.

Havia tristeza naquele abraço, mas Elisa percebeu que tristeza e arrependimento não eram a mesma coisa.

Pouco antes de partir, voltou à mesma loja do shopping.

Passou pelo vestido.

Passou pelo blazer.

Chegou à seção de moda praia e viu novamente o biquíni azul.

Sorriu.

Dessa vez não precisava dele.

Continuou andando até encontrar uma mala pequena, resistente, do tamanho permitido para a viagem.

Olhou algumas opções. Escolheu uma.

E foi até o caixa.

Lindos e doces frutos sempre estariam em seu caminho.

………………….
Fabiana Saka (@fabianasaka) é psicóloga e escritora carioca. Formada em Psicologia, com especialização em Terapia Familiar e mediação de conflitos, atua há mais de 14 anos na clínica. É autora de As Aventuras de Daniel: Não Tenha Medo de Si Mesmo e colaboradora do Café Literário, de Notibras.

 

 

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