O LADO B DA LITERATURA
ENTRE AS AVENTURAS DA LITERATURA E O COTIDIANO, O LIVRO COMO TERAPIA
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O Café Literário é uma riqueza. Uma obra viva, coletiva, reunindo autores contemporâneos da melhor qualidade, e trazendo para esta seção de Notibras uma efervescência literária que, digo com carinho e convicção, raramente se vê reunida num mesmo lugar. A história ainda há de registrar, com justiça, a importância desse trabalho que a literatura brasileira deve ao meu velho companheiro José Seabra e aos nossos meninos Eduardo Martínez e Daniel Marchi: o gesto, ao mesmo tempo simples e grande, de trazer autores vivos ao encontro do Brasil que está vivo.
E o Lado B dessa literatura — que eu faço com prazer sincero — ora se dedica a revisitar o passado, ora se inclina a esquadrinhar o presente. Hoje, volto a expor a prata da casa. A autora que teve a coragem de abrir o coração para esta coluna é Fabiana Saka.
Fabiana nasceu no Rio de Janeiro, em 1982. É carioca até no sotaque, com aqueles chiados que, ao ouvido da gente, soam quase como um traço de afeto. Mas carrega também uma ligação ancestral com o Japão, sugerida no próprio sobrenome (Saka, em japonês, significa ladeira). Quando ainda era bem jovem, morou no país do Oriente e chegou a trabalhar na indústria, como operária de fábrica, enfrentando a disciplina severa que costuma marcar o cotidiano de trabalho por lá. Foi duro — como dura é, em geral, a vida de qualquer imigrante —, mas ela me contou isso sem vitimismo: com a lucidez de quem reconhece o peso e, ao mesmo tempo, o aprendizado. Além disso, seu caráter de virginiana absorveu bem essa disciplina rígida, algo que ela carrega com facilidade em sua vida cotidiana.
E foi justamente ali, nessa mistura de solidão e rigor, que a literatura plantou raízes mais profundas em sua vida. Os livros preencheram o silêncio e, de algum modo, reconectaram Fabiana a um mundo que lhe era mais próximo — não geograficamente, mas afetivamente.
De volta ao Brasil, com sonhos em expectativa, foi trabalhar no comércio, como vendedora em uma rede de eletrodomésticos e móveis, enquanto cursava Psicologia. Formou-se, atuou na área de recursos humanos, fazendo seleção de pessoal em empresa. Mais tarde, quando estava de licença-maternidade, Fabiana deixou de ser uma leitora solitária e passou a integrar um grupo de leitura no qual permanece há mais de dez anos. Na vida profissional, decidiu montar o próprio consultório e entregar-se, de vez, à clínica. Hoje, é uma psicóloga disputada, reconhecida, de vasta experiência, e isso se percebe não só pelo currículo, mas pela forma atenta com que fala do humano.
Mas há, no coração dessa profissional, o traço marcante da menina de Realengo, bairro suburbano do Rio onde nasceu e cresceu — e onde, como tantas crianças, assistia ao Chaves na televisão. Foi ela mesma quem me disse que entende melhor, hoje, a identificação antiga com a Chiquinha, interpretada por Maria Antonieta de Las Nieves: desde cedo, aprendeu a ser independente, vencendo os desafios que a vida apresentou com inteligência, resiliência e, sobretudo, bom humor.
Sim, leitores: Fabiana Saka é, sem dúvida, bem-humorada — e quem convive com ela não precisa de argumento, só de convivência para confirmar.
Ela ama gatos e girassóis; poderia, se quisesse, ser tutora de uma pequena república felina. Mas, por ora, limita-se (ou escolhe) a ser a humana de Tony, um gatinho amarelo e branco, companhia discreta que está sempre por perto enquanto Fabiana, nas raras horas de folga, se dedica à leitura e à escrita, enquanto aprecia um bom café. Hoje, diz ela, assiste menos filmes do que gostaria, ainda que se considere cinéfila.
Da prática clínica, somada ao prazer da leitura, nasceu a vontade de iniciar-se na escrita. Havia ali um convite natural: a riqueza das histórias que escuta diariamente, o modo como a vida se revela em detalhes, a dignidade de cada conflito humano. Daí até se tornar escritora e, afinal, colaboradora regular do Café Literário — onde já reúne uma legião de leitores que apreciam seus contos, por vezes atravessados por repertório literário e também clínico — foi um caminho quase orgânico.
Confesso que me ocorreu uma curiosidade antiga: pode a literatura ser instrumento de psicoterapia? Fabiana confirmou minha suspeita com a tranquilidade de quem não precisa “defender tese”, apenas contar o que vive.
Nesse espírito nasceu seu primeiro livro, As Aventuras de Daniel – não tenha medo de si mesmo, vencedor do Prêmio Clarice Lispector em 2025. A obra conta a história de um menino às portas da adolescência e de como o encontro com a psicóloga Ana interfere positivamente em sua vida, justamente numa fase de tantas transformações.

Eu me permito discordar do rótulo “infanto-juvenil”. Não por qualquer desdouro, mas porque costumo classificar literatura por outras bases. E creio que, para além da faixa etária (que, muitas vezes, tem mais a ver com mercado do que com essência), há ali boa literatura. Literatura que pode e deve ser lida por pais, por professores que lidam com crianças daquela idade e, também, por profissionais de Psicologia. Certamente os enriquecerá.
Fabiana é uma viajante. E, embora não se declare fã de aventuras radicais, de vez em quando se permite um salto fora da curva: contou-me, sorrindo, que voou de asa-delta a partir da Pedra Bonita, no Rio, sob um visual deslumbrante. Foi, para ela, belíssimo e inesquecível.
Dotada de inteligência arguta, Fabiana Saka é daquelas pessoas que a gente ouviria por horas, só para acompanhar sua visão de mundo e suas histórias. Mas, para encerrar este Lado B, perguntei a ela quais planos acalenta para o futuro. E Fabiana me disse que seguirá publicando, em breve, novas aventuras do seu personagem Daniel, além de considerar, com carinho, um livro de contos que, digo sem duvidar, tem muito a contribuir para a literatura brasileira contemporânea.
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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.