Exagero intencional
Entre hipérboles e ditados populares, costumo rir até de piadas em braile
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Desde que descobri que rir é o melhor remédio para qualquer tipo de mal, inclusive para brochura no grau dez, decidi me inscrever em qualquer curso que me desse oportunidade de perceber que morrer de rir não significa necessariamente rir para morrer. Trata-se somente de uma figura de linguagem chamada hipérbole, cuja definição é exagerar intencionalmente uma ideia de modo a realçá-la. O humor é algo subjetivo. Na prática, ele sempre objetiva a boa risada. E isso independe do tamanho, da perfeição ou da forma como a anedota é contada.
Alegre ou triste, costumo rir até das piadas em braile. Não me lembro de nenhuma. No entanto, apesar de nunca revelada, jamais esqueci a do fotógrafo. Não gosto das politicamente incorretas, entre elas aquela que me obriga a informar a razão pela qual o advogado do frango foi à delegacia. Não conto nem sob chibata que ele foi soltar a franga. Sobre os carecas, fico com os “pirocados” do Aurélio. Também fujo das piadas de baixinhos. É chato me apegar a doses de humor com altura reduzida.
Como estou solto, não é demais afirmar que baixinho aceita qualquer apelido, inclusive os clássicos meio quilo, toco de amarrar jegue, carcereiro de gaiola, pintor de rodapé, anão de jardim, escalador de calçada e arquiteto de Lego. O que eles definitivamente não aceitam é a alcunha de trinta e quatro e meio, isto é, aquele que não consegue fazer 69. Enfim, quem nunca colocou um apelido engraçado no amigo ou colega de trabalho apenas para demonstrar o quanto a gente ama importuná-los?
Se você procura um apelido engraçado para a amiga, o amigo ou um familiar, basta reparar nos movimentos e trejeitos de cada um. Por exemplo, costumo chamar de docinho de coco aquele camarada que está sempre a meu lado. Zona Sul são os que se imaginam burgueses. Meteoro da Paixão, Tricoteira, Mimadinho e Tagarela dispensam legenda. Muito pior do que apelidos são alguns nomes. De tão terríveis, a origem deles deveria ser estudada por juntas médicas, pais de santo e até pastores evangélicos. Um dos mais conhecidos presenteia um juiz de direito de Santa Catarina.
Só podia ser de lá. Ele atende por Jacinto Leite Aquino Rego, mas prefere ser chamado de JL. Em público, o nome completo pode gerar uma detenção sumária. Privada de Jesus, João Cara de José e Jorge da Capadócia são outros exemplos marcantes. Na Ásia, a escolha do nome de um indivíduo ocorre de maneira peculiar. Na China, a maioria dos nomes se origina da cultura budista, taoísta e confucionista. Não tenho nenhuma intimidade com Buda, Sun Tzu ou Confúcio. Se tivesse, perguntaria a um deles ou aos três que tipo de mal lhes causaram sujeitos batizados de Ku Shai Xang, Mel Bilaw, Sujiro Kesuma, Xing Chen Chana, Lin Xu Pei, Hon Tao Oxibiu e Mijei na Xon.
Entre os apelidos e os nomes desconexos, prefiro morrer de rir com os ditados criados pelo povo brasileiro. Recebido esta semana, o último me fez gargalhar por dias a fio. Também pudera. Sempre me considerei esperto, mas descobri que o sapo é muito mais malandro do que eu. Barbudo ou não, o batráquio ou anfíbio casa, leva a mulher para o brejo e passa o dia inteiro comendo perereca. Se há algo melhor, desconheço. Também não sei quem é o sujeito macho que confundiu um homem feito de pau com um homem de pau feito. O que sei é que um rabo de cavalo no seu cabelo cheio jamais deverá ser a mesma coisa que um cavalo no seu rabo cheio de cabelo.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras