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Sobradinho

Entre o diferencial e o Natal

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Segunda-feira. Lá estava o Leopoldo, proprietário da Magnu, a oficina mais afamada e malfalada de Sobradinho, a quase bucólica cidade do Distrito Federal. O sujeito estava debaixo de um Opala ajudando o Boquinha, o mecânico mais talentoso do local.

— Tu tem certeza que o problema é no diferencial?

— Leopoldo, tu tá aqui pra me ajudar ou pra me atazanar?

— Desculpa, Boquinha! Num sabia que você tava tão sensível assim.

— Hum! Com a quantidade de serviço que você pega, quem se estrepa sou eu. Os clientes ficam tudo aí me torrando a paciência.

— Sabe duma coisa, Boquinha?

— Hum! O quê?

— Tu tem razão! A partir de hoje, não pego mais serviço até entregar tudo o que tá aqui.

— Hum! Duvido! E, mesmo se fosse verdade, só acabaríamos de trabalhar dia e noite no Natal.

— Ah, Boquinha, o Natal até que não está tão longe assim.

— Natal do ano que vem.

Enquanto os dois proseavam ironias, eis que entrou no recinto o Gilmarildo, cliente dos mais tradicionais. Por um instante, o homem pensou que não havia ninguém na oficina, até que ouviu vozes.

— Leopoldo, você está aí?

— Minuto, Gilmarildo! Já tô indo.

Boquinha, já prevendo o pior, cochichou:

— Ô, Leopoldo, vê se não vai arrumar mais trabalho, hein!

— Calma, Boquinha! Deixa comigo! Ou tu acha que sou homem que não cumpre palavra?

— Hum!

Assim que saiu debaixo do veículo, o dono da Magnu cumprimentou o Gilmarildo, que estava com cara de desalento.

— O que foi, Gilmarildo?

— Leopoldo, tu não vai acreditar.

— Num vou acreditar no que, homem?

— A Carlota. Você conhece a Carlota, né?

— A tua esposa?

— Não, Leopoldo! A minha mulher é a Cris. Carlota é a minha Caravan.

— Ah, tá! Tô brincando com você.

— Pois é, Leopoldo, ela fundiu o motor.

— Eita!

— Pior!

— O quê?

— Prometi pra Cris que iríamos viajar pra Caldas Novas com ela.

— Cris?

— A minha mulher, Leopoldo!

— Eu sei! É que estou aqui pensando em como posso te ajudar.

— Sexta-feira.

— O que tem sexta?

— A Cris e eu faremos 30 anos de casados. Você acredita?

— Meus parabéns, Gilmarildo.

— Parabéns como, Leopoldo? Como é que vou cumprir a promessa pra minha mulher?

— Vai no seu outro carro.

— Não posso, Leopoldo. É promessa. E promessa é coisa que precisa ser cumprida.

Enquanto o Leopoldo pensava, o Boquinha colocou a cabeça para fora e lhe lançou raios de esconjuros. Coração mole e desejando que o Gilmarildo e a Cris fizessem a tão esperada viagem, o dono da Magnu prometeu entregar a Caravan na quinta-feira à tarde.

— Leopoldo, nem sei como posso agradecê-lo. Muitíssimo obrigado, meu amigo!

— É um prazer servir os meus clientes, Gilmarildo, ainda mais um tão fiel que nem você.

Gilmarildo, olhos lacrimejando, se despediu. E foi aí que a coisa pegou.

— Hum! Homem de palavra! Tu é mesmo um cretino mentiroso, Leopoldo.

— Mas, Boquinha, você viu o homem. O que eu poderia fazer?

— Que dissesse não, que não podia e pronto!

— Boquinha, meu amigo, você me conhece. Sou homem de coração mole.

— Pois esse seu coração mole vai te matar. E o serviço vai ficar aí. Talvez os seus genros assumam os abacaxis que tu arruma pra mim. Melhor seria que ficasse pro pé de pano que vai casar com a viúva que tu vai deixar.

— Ah, isso não vai acontecer.

— E por que tu tem tanta certeza disso?

— É simples, Boquinha: não tenho pretensão de morrer por esses dias.

Não morreu mesmo. Tanto é que o Gilmarildo e a Cris pegaram a estrada na sexta-feira bem cedinho na Carlota. Os detalhes da nova lua de mel não irei revelar. Seja como for, de vez em quando, acontece milagre na Magnu.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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