Osmar, o advogado
Entre o direito e a poesia
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Osmar era advogado. No entanto, a despeito do ofício nos tribunais, era poeta, sentia-se um, como se amigo próximo de renomados do meio, apesar destes não o saberem. E o que isso importava diante de tamanha intimidade com os versos alheios que lhe eram tão caros, como se ele os houvesse criado? Loucura? Não, meu amigo, logo vejo que o que falta em você é justamente o que no coração daquele homem transbordava: a loucura.
Absurdo, alguém poderia dizer. Pois digo e afirmo sem receio do equívoco, mesmo que ele espreite em alguma madrigueira e, do nada, me jogue na cara que tudo o que afirmo não passe de devaneio de um apaixonado por poesia. E o sou, não refuto tal sentimento, não obstante a minha completa e notória ausência de traquejo com os versos, sejam rimados ou livres, sem amarras, sem métricas estúpidas que nos aprisionam em modelos austeros, inflexíveis e intransigentes. Que nem a bela e útil matemática discordaria do meu pensamento.
Osmar! Sim, ele que nos interessa, é o mote que lhe proponho hoje. Aprisionado em ternos de finos cortes, transpirava horrores na advocacia, enquanto era pura inspiração com a pena na mão, que rabiscava sem pudores a folha em branco nas noites solitárias. Queria aquilo, embrenhar-se naquele mundo de Drummond, Vinicius, Daniel Marchi, Fernando Pessoa, Sarah Munck, Simone Magalhães, Luzia Couto, Victor Hugo e de tantos outros.
— Dr. Osmar, o senhor viu que o prazo daquele recurso vence amanhã?
— Dr. Osmar, a dona Laura quer saber se o senhor já tem o parecer daquele caso contra a clínica.
— Dr. Osmar, quando é que o senhor vai poder atender o seu Juvenal da mercearia?
Casos, casos, casos… Ninguém para falar sobre o novo poema do Renan Damázio ou do Jorge Lenzi. Quanta falta de sensibilidade! Onde já se viu? Litígios! O mundo da discórdia, como se disputas fossem a razão, ou falta dela, a mola propulsora da sociedade. Nem mesmo uma única estrofe, nem sequer um pio de um joão-de-barro.
Engravatado, Osmar não passava de mais um oprimido em busca do ganha-pão. Sufocado por tantas peças processuais, vez ou outra, abria a janela na ânsia de sentir a brisa que lambia sua face desejosa de poesia. Era poeta ou, ao menos, se imaginava um.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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