Não é soberba
Entre o Ódio e a Análise
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Imaginem nos odiar pelos nossos posicionamentos, enquanto nós paramos para analisar o contexto social, histórico e cultural em que vocês cresceram, tentando compreender e não justificar como alguém se tornou tão desumano. Há um abismo entre reagir e interpretar. E é nesse abismo que muitos preferem permanecer, porque pensar dói mais do que odiar.
Nós não falamos a partir do ressentimento fácil. Falamos a partir da observação. Enquanto nos atacam por termos opinião, nós fazemos o movimento inverso: investigamos as estruturas que produziram certas violências, os silêncios herdados, as permissões normalizadas. Não nos interessa apenas o que alguém faz, mas por que se sente autorizado a agir assim. Isso não é condescendência; é método.
Há quem confunda análise com soberba.
Mas o que fazemos é um exercício radical de humanidade: tentar entender mesmo quando a atitude do outro nos fere. Ainda assim, compreender não significa absolver. Nós sabemos separar leitura social de perdão moral. Saber de onde alguém veio não nos obriga a aceitar o que essa pessoa se tornou.
O incômodo nasce porque nossa postura desestabiliza.
É mais confortável nos chamar de exageradas, militantes ou intolerantes do que admitir que certas desumanizações são produto de histórias mal elaboradas, privilégios não questionados e afetos nunca responsabilizados. Quando nomeamos isso, tocamos na ferida coletiva que muitos insistem em cobrir.
Nós escolhemos pensar.
Pensar é um ato político. Pensar exige tempo, escuta e disposição para lidar com complexidade. Enquanto nos odeiam por falar, nós seguimos analisando porque não abrir mão da reflexão é também uma forma de resistência.
E o que fica, para quem lê e se reconhece, é simples e necessário: nós não somos cruéis por apontar a desumanidade; cruel é se recusar a enxergá-la. A vida continua quando transformamos indignação em consciência e quando entendemos que analisar o mundo não nos torna superiores nos torna responsáveis.