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Reunião de condomínio

Entre o Ricardo Darín e os bolinhos de chuva

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Jairo, vizinho de frente, é ator. Não desses que vemos na televisão ou no cinema, mas de teatro. Diz que já atuou em novelas, pequenos papéis, nada que o diretor não possa cortar para dar mais tempo aos comerciais. Também jura que apareceu em Central do Brasil, que é possível vê-lo na multidão que passa por detrás da Fernanda Montenegro enquanto ela escreve uma daquelas inúmeras cartas.

Gosto do sujeito, um tipo que não perturba. Costumo dizer para meus amigos, apaixonados por cinema argentino, que moro em frente ao Ricardo Darín. Obviamente que ninguém acredita, pois, até onde todo mundo sabe, ele não largaria a sua Buenos Aires nem por Nova Iorque, quanto mais para se esconder em um quarto e sala em Brasília.

Reunião de condomínio é algo que evito ao máximo. No entanto, fui pego desprevenido na última e, sem molejo de inventar mentira de última hora, deixei-me ser puxado pelo braço por dona Zuleica, simpática moradora do 304.

— Vamos, Reinaldo, que hoje vai ter bolinho de chuva.

Bolinho de chuva? Gente, como se eu, aos 38 anos, ainda tivesse interesse por bolinhos de chuva. Mas como resistir ao sorriso daquela senhora, dona de dois gatos e cabelos com cheiro de fritura que me lembram os da minha finada avó?

— Sério?

— Sério! Foi a Letícia que fez. Você acredita que ela separou do marido?

— Sério?

— Sério! A pobrezinha está daquele jeito, asa caída, olhar perdido. E tão jovem ainda.

Sem saber o que dizer, arregalei os olhos, o que fez com que dona Zuleica aproveitasse a oportunidade.

— Pois é, Reinaldo, homem bom tem olhos castanhos, que são sinceros. Os do ex-marido da Letícia eram verdes. Precisa ser muito ingênua pra acreditar num homem assim.

— Por conta dos olhos verdes?

— É! Você não sabia?

— Não.

— Por isso que o mundo está desse jeito, Reinaldo. Ninguém mais sabe de mais nada.

Por sorte, outros moradores chegaram e, assim, as atenções foram distribuídas. Lá estavam, entre outros, Marília, Afrânio, o velho Jofre, também o simpático residente do apartamento 101, cuja excentricidade do nome me faz esquecê-lo. O último a chegar foi justamente o Jairo, que chegou altivo, sorriso largo, como se estivesse pisando no palco. Confesso que senti certa inveja do gajo, mesmo que por infame minuto, até que a Mirtes, a síndica, deu início à assembleia.

O principal assunto era a nova cota condominial destinada à pintura do prédio. Todos, com exceção da Mirtes, foram terminantemente contra. Mas não pense você que a coisa foi tão simples assim, já que a síndica não é mulher de entregar os pontos facilmente. Ela apelou para tudo e para todos, até meteu Jesus no meio, como se ele estivesse mais preocupado com a tinta descascada da fachada do edifício a salvar as almas dos fiéis.

Enquanto aquela batalha era travada, puxei conversa, à boca pequena, com o meu vizinho.

— E aí, Jairo, como é a vida de ator?

Ele me olhou com olhos de mestre, sorriu levemente, tocou meu ombro e disparou:

— Sabe, meu jovem, nós, que vivemos da arte, estamos amparados por um direito universal.

Curioso, esperei que Jairo completasse o pensamento, mas ele soube aproveitar aquele momento, o que me obrigou a questioná-lo:

— E qual é esse direito universal?

Jairo sorriu, pousou levemente a mão sobre o meu ombro e, com a franqueza própria dos grandes atores, me confidenciou:

— Passar vergonha, meu amigo, passar vergonha.

Nem notei quando a síndica deu por encerrada a reunião. Os ânimos, ainda exaltados por causa das desavenças, foram resolvidos diante da bacia cheia de bolinhos de chuva, que, aliás, estavam deliciosos.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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