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No lugar do outro

Entre o Ser e o Estar

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

É, sim, muito difícil se colocar no lugar do outro.

Mais difícil ainda é parar por alguns instantes e observar, com honestidade, aquilo que fazemos com o outro e para o outro.

Parece tão simples… e, ainda assim, tantas vezes se torna impossível.

Talvez porque, com o passar do tempo, tenhamos nos tornado mais egoístas. Ou talvez porque tenhamos aprendido a olhar tanto para dentro de nós mesmos que já não conseguimos enxergar quem está ao nosso lado.

Como não percebemos?

E, quando percebemos, por que não mudamos?

É curioso como muitos enchem a boca para dizer que nada levaremos desta vida, que tudo ficará para trás, que bens, títulos e conquistas não atravessarão conosco o último caminho.

Mas, se sabemos disso, por que fazemos tanta questão de acumular?

Por que nos agarramos tanto ao que é passageiro?

Por que usamos a espiritualidade como desculpa para justificar nossos erros, nossas ausências, nossa falta de cuidado?

Qual é o preço disso?

Sinceramente, às vezes, fico sem entender.

Outro dia, mandei uma mensagem para uma pessoa querida. Uma daquelas mensagens que nascem de um lugar sincero, porque existem pessoas que, simplesmente por existirem em nossa vida, merecem ser lembradas.

A resposta me surpreendeu:

— Não tenho muito a agradecer.

Como assim?

Como alguém pode olhar para a própria história e não encontrar motivos para agradecer?

A vida, eu sei, segue seus caminhos. Traz dias bons e dias difíceis. Entrega encontros e despedidas. Oferece alegrias, mas também nos apresenta dores que jamais imaginamos suportar.

Ainda assim, não estar grato?

Talvez muita gente precise de um choque. Um susto. Um instante de silêncio capaz de interromper a pressa e fazer enxergar aquilo que sempre esteve diante dos olhos.

Porque gratidão não deveria nascer apenas quando tudo dá certo.

Não deveria depender da ausência de problemas.

Não deveria ser uma palavra bonita usada em momentos convenientes.

Gratidão é também reconhecer o que temos enquanto temos.

É olhar para uma pessoa e perceber seu valor antes que a ausência nos ensine, da maneira mais dolorosa, o quanto ela significava.

E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre SER e ESTAR.

Podemos estar felizes hoje e tristes amanhã.

Podemos estar perto e, ainda assim, permanecer distantes.

Podemos estar gratos por um momento, porque algo nos favoreceu.

Mas ser grato é diferente.

Ser grato é uma postura diante da vida.

É reconhecer.

É valorizar.

É agradecer não apenas pelo que recebemos, mas também pelo privilégio de poder oferecer alguma coisa a alguém.

Porque ESTAR é circunstância.

SER é escolha.

ESTAR passa.

SER permanece.

E talvez, no fim das contas, a grande pergunta não seja o que levaremos desta vida.

Talvez seja o que deixaremos nela.

Nas pessoas que tocamos.

Nas palavras que dissemos.

Nos abraços que oferecemos.

Nas vezes em que escolhemos compreender, quando seria mais fácil julgar.

Porque, se realmente acreditamos que nada levaremos, então que ao menos tenhamos a sabedoria de deixar algo bom por onde passarmos.

E que, quando alguém lembrar de nós, não precise de um choque, de um susto ou de uma ausência para finalmente perceber o quanto fomos importantes.

Que saibamos ser, enquanto ainda temos tempo de Estar.

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