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Balizas

Epístola aos facebuquenses e notibrenses

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

1. E como ele estivesse exausto, os pés feridos pela longa caminhada, deitou-se e adormeceu. E seus fantasmas chegaram – não para assustá-lo, que isso não ocorria facilmente, e ademais não eram atemorizantes; e sim para lembrar-lhe que haviam balizado toda a sua vida.

2. A descoberta da sacanagem

O primeiro a chegar foi o fantasma de Cidineia, Neia para os íntimos. O nome não tem acento, ela também não tinha, e nem peitinhos. Era uma tábua. Também, não se pode exigir muito de uma menina de 11 anos (ele estava com quase dez). Era uma mulata de olhos vivos, cheios de malícia. Chegou até ele, num dia em que estavam sozinhos, e perguntou:

– Você conhece o Xote das Meninas?

– Ela só quer, só pensa em namorar…?

– Não, com a outra letra – cortou Neia.

E cantou tudo, uma barbaridade após a outra. O refrão era um mimo:

“Ela só qué/fazê de quatro pé.”

(Foi substituída uma palavra começando com f por outra, do contrário esta epístola não seria publicada.)

No final da escabrosidade, ela o encarou, em desafio.

– E então?

Ele não reagiu. Não tentou beijá-la, nem passar a mão nela, no traseiro quase inexistente, na promessa de peitinhos que um dia brotariam, mas não já. Ficou maravilhado. Então as garotas falavam sacanagem, que nem os meninos! Ela era muito mais atirada do que ele, um bobão de nove anos. Não lembra o que respondeu, como o papo acabou, como foi pra casa, se conseguiu dormir. Só no dia seguinte, quando a ficha caiu, é que ele recorreu ao bom e velho 5 x 1, ritual com que passou a homenageá-la religiosamente, todos os dias.

E ele percebeu, muito tempo depois, que Neia, com seu corpinho de tábua e seus olhinhos maliciosos, havia introduzido a dimensão da sacanagem em sua vida.

3. A descoberta do sexo (por assim dizer)

Materializaram-se a seguir todas as garotas da galera, e ele percebeu por quê. Era o ano de 1958, a versão cidinesca do Xote das Meninas era apenas uma das incontáveis músicas picantes que ele havia aprendido, o Brasil jogava e ganhava na Suécia, e a cada gol brasileiro meninos e meninas se abraçavam. E demoravam a se largar. Toques recíprocos, carícias nos peitinhos em franco desenvolvimento… A partida final, Brasil 5 x Suécia 2, foi uma apoteose de esfrega-esfrega. A turminha festejou até os gols da Suécia, tudo era pretexto para uma boa encoxada.

As garotas faziam e deixavam que fizessem, enquanto sorriam, misteriosas. Ele e os demais moleques queriam mais, ficavam com uma arretação dos diabos, sem perceber a imemorial sabedoria feminina escondida por trás daqueles sorrisos. Era como se dissessem, “Temos tempo, vamos esperar…”.

Muitíssimo tempo depois, ele percebeu que suas parceiras sorridentes haviam-lhe ensinado que sarro é uma delícia, mas quanto a sexo de verdade, é melhor aguardar a inevitável explosão dos hormônios, para que seja algo verdadeiramente prazeroso.

4. Os magos

Eles chegaram no início de sua adolescência, entre 1959 e 1961. Assim como os Reis Magos haviam levado presentes para o Menino Jesus, três figuras deram-lhe dádivas que moldariam o seu futuro. Não eram reis, longe disso. Magos, quem sabe?

O primeiro foi Fidel Castro. A Revolução Cubana, vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, selou o compromisso dele com a esquerda.

O segundo foi o gaúcho Leonel Brizola, com a Campanha da Legalidade contra o golpe militar de 1961. A mobilização pela posse do vice-presidente constitucional, após a renúncia de Jânio, mostrou que as forças democráticas podiam vencer em nossas glebas, e transformou a guinada à esquerda dele em militância.

O terceiro foi o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Ele lembra ter lido os versos iniciais do Poema das Sete Faces – “Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida” – com uma sensação de maravilhamento comparável à primeira audição do Xote das meninas, na voz maviosa e na versão maliciosa de Neia. Talvez por também se chamar Carlos, talvez porque o vaticínio do anjo torto explicasse muita coisa de seu comportamento.

E ele percebeu que, a partir desse momento, os jogos estavam feitos para o devir do Carlos de Niterói, gauche em política e em especial na existência, contista menor depois de idoso, pálida emulação do Carlos de Itabira, poeta maior por todos os séculos dos séculos, amém.

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