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Desilusão

Era um mundo cada vez mais perigoso

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Como sempre fazia, ele entrou na página de seu grupo literário. Era um esforço cotidiano para esquecer, por um momento, um mundo cada vez mais perigoso, em que as potências nucleares pareciam decididas a trucar, a pagar pra ver quem controlava o planeta. E, como sempre acontecia, desiludiu-se.

Seus contos estavam ali, junto aos de seus pares. Mas a página não tinha vida, era meramente um registro de criações feitas de prazer e dor; parecia extraída de um Diário Oficial. A equipe editorial bem que tentava, atribuía apostos aos poetas, cronistas e contistas, distribuía elogios a torto e a direito (alguns deles imerecidos; vários de seus textos, admitia, eram no máximo razoáveis, e certamente a mesma coisa acontecia com os dos demais autores), mas não havia reação, os elogios não provocavam zoeira alguma, nenhum comentário divertido, desmanchavam no ar, como se fossem sólidos…

Ele se esforçara para insuflar vida ao grupo moribundo. Elogiara diversos textos: nenhuma reação. Tirara sarro da equipe editorial e, claro, de si mesmo, para apimentar a coisa. Os editores responderam com humor, como ele esperava; mas eles eram, digamos, seus ímpares, queria uma resposta semelhante de seus pares, e ela não veio. Era como se cada um vislumbrasse suas metas como poeta, cronista ou contista e fosse em frente, sem tempo para relaxar.

Então ele também silenciou. Mas todos os dias examinava a página do coletivo, para ver se alguém se animara a elogiar ou criticar algum texto, a zoar com algum parceiro de crime. Aí ele agradeceria aos deuses e entraria na brincadeira, feliz como um pinto no lixo. Mas, aparentemente, todos haviam se transformado em corujas distraídas, não falavam e nem prestavam atenção.

Ele engoliu a dose diária de desilusão e decidiu caminhar um pouco pela cidade, para espairecer. Enquanto vagava por um parque, tropeçou em alguma coisa e caiu. Não era uma pedra ou a raiz de uma árvore, e sim a mão de um cadáver semienterrado, cujo rosto, devido a sua queda, estava a centímetros do seu.

Nesse momento, lembrou-se de tudo.

O mundo não era mais perigoso. Era um lugar de paz – a paz dos cemitérios. Bombas nucleares destruíram cidades em todos os continentes, e a radiação eliminou a grande maioria dos sobreviventes. O confronto atômico não teve vencedores, concretizara-se a previsão MAD, sigla em inglês para “destruição mútua garantida”.

Ele estava entre os pouquíssimos sobreviventes, talvez o único da metrópole onde vivia (?). Era um homem-barata, pois os cientistas acreditavam que elas sobreviveriam a uma hecatombe nuclear. Um homem-barata enlouquecido, cujo psiquismo se mostrara incapaz de encarar a realidade.

Don Quixote redivivo, ele imaginava escrever contos em seu computador e enviá-los por email à equipe editorial, que os postava; imaginava lê-los, bem como ler as produções inexistentes de autores para sempre desaparecidos – ou, que nem ele, transformados em seres-barata (o gênero não era importante, a baraticidade, sim). Conseguira imaginar até uma ausência, a falta de brincadeirinhas entre os autores do grupo.

E tudo isso desapareceu, ao tropeçar na mão rígida de um cadáver e, no chão, dar de cara com seu rosto corroído pelos vermes. Suplicou então aos deuses por dois favores: a morte, dádiva absoluta, ou, pelo menos, o retorno da insanidade, para que prosseguisse com sua vida (?) de autor-barata, desiludido com a falta de resposta de seus pares a suas observações literárias bem-humoradas.

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