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Alice

Era uma vez…

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Era uma vez uma menina chamada Alice, que vivia em uma terra maravilhosa. O clima era ameno, não havia calamidades naturais, nem mesmo inundações, embora chovesse todos os dias. Mas era bem pouco, o suficiente para regar por algumas horas as plantas, da grama das pradarias a árvores gigantescas.

E todos falavam. Não apenas as espécies animais, entre elas a espécie humana, mas todos os seres vivos, até mesmo micróbios, bactérias e vírus infinitesimais, estes últimos seres cuja vitalidade é questionada por diversos cientistas. Falavam de acordo com suas condições corporais, alguns emitindo sons claramente, outros apenas murmúrios, rosnados e gemidos, ou recorrendo à silenciosa movimentação corporal e à telepatia; mas todos os viventes conseguiam se comunicar entre si.

E todos reverenciavam a mesma divindade. Era o deus-vida, que lhes garantia a liberdade de ser o que eram e de evoluir dentro dos limites inscritos em seus genes, em seu DNA.

E todos dançavam em louvor ao deus-vida: talvez o único ritual daquela terra de maravilhas. No fim da tarde, quando o sol tingia de vermelho os topos das montanhas, antes de desaparecer e ceder seu lugar no firmamento à lua e às estrelas, todos cessavam por um momento o que estavam fazendo e dançavam em agradecimento pela existência. Predadores e presas dançavam lado a lado, sem temor, antes de a perseguição ser retomada, na eterna luta pela sobrevivência. Borboletas, abelhas e outros insetos alados criavam lindas coreografias aéreas. Os que conseguiam emitir sons articulados entoavam louvores e dançavam ao seu ritmo; os vegetais, imobilizados, moviam suas folhas, filtravam o vento entre elas e geravam, desse modo, suaves acalantos. Não havia cientistas para descrever o que faziam micróbios, bactérias e vírus, mas certamente também agradeciam, cada um a sua maneira, à divindade, pela dádiva de estarem vivos.

Certo dia, Alice caminhava pelo prado, pisando com cuidado, para não machucar as lâminas da grama, quando encontrou dois objetos desconhecidos: um espelho e um livro. Examinou o mais simples deles, e viu que em sua superfície fria apareciam as feições de uma menina. Recuou, assustada; o rosto da garota desapareceu. Olhou em volta, estava sozinha. Aproximou-se da coisa, com cuidado, e viu o rosto reaparecer, com a mesma expressão cautelosa de sua fisionomia.

Alice começou a desconfiar do que estava acontecendo. Caretas, um sorriso escancarado, um beicinho de tristeza simulada, tudo isso foi reproduzido no rosto no espelho.

– Sou eu mesma! – concluiu, triunfante. – O deus-vida me mandou essa coisa para eu me ver!

Satisfeita, passou a examinar o segundo objeto. Tinha duas superfícies grandes, de igual tamanho, na frente e atrás e, entre elas, muitas superfícies menores, cobertas de pequenos sinais. A superfície da frente tinha uma inscrição e, logo embaixo, a imagem de alguém semelhante a Alice, cuja perna atravessava a superfície fria de um objeto parecido com o que mostrara o rosto da menina.

Ninguém sabia ler ou escrever na terra das maravilhas, Alice não tinha como identificar o objeto em suas mãos como um livro, com as capas e folhas escritas. E muito menos o título, Alice através do espelho. No entanto, a experiência anterior com o espelho lhe permitiu compreender a cena: uma menina penetra pela coisa fria.

Alice começou a folhear o livro e viu ilustrações de bichinhos que dançavam, riam… tudo familiar. Exclamou:

– É outra terra das maravilhas! Diferente da minha, quer dizer, da nossa – corrigiu rápido, com um gesto de desculpas para a grama –, mas também maravilhosa. Vou visitá-la!

– Alice, não vá! É perigoso! – exclamaram em uníssono as folhas de grama.

– Não se preocupem, vou tomar cuidado.

– Mas você vai perder a dança pro deus-vida!

– Nada disso, fico pouco tempo lá, volto bem antes do cair da tarde.

Vendo a expressão decidida no rosto da menina, a grama silenciou. Antes que Alice atravessasse, porém, o mundo de outra Alice irrompeu pelo espelho. Era a Inglaterra de 1862, ano em que Charles Dodgson – pseudônimo Lewis Carroll – conta a Alice Liddell, menina de 10 anos, as aventuras de outra Alice numa terra fantástica, e a criança, fascinada, suplica-lhe que escreva o relato, publicado três anos depois. A Inglaterra vitoriana, com igrejas que consideraram blasfemo o culto ao deus-vida e o perseguiram; fábricas que poluíam a atmosfera, as águas e o solo; operários que acionavam as máquinas, atingidos pela tuberculose e outras doenças causadas ou agravadas por 12 horas diárias de trabalho brutal e ininterrupto; os donos das fábricas, de terras, nobre e reis, levando a desigualdade para uma terra até então sem senhores; exércitos e marinhas para garantir a ordem. E com eles chegou a guerra, flagelo dos flagelos.

E veio todo o resto do planeta. Colônias, onde a exploração do trabalho era inimaginável, ainda pior que nas fábricas inglesas. Predadores, que desconheciam o código de paralisação da caçada para o louvor da divindade. Tempestades, furacões, terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, todas as armas com que a natureza dava o troco à devastação causada pelo homem.

E a terra das maravilhas – não a literária, de Lewis Carroll e sua pequena musa de 10 anos, mas a outra, a da nossa Alice – deixou de existir.

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