Teresinha
Era uma vez uma senhora de uns 58 anos
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Era uma vez uma certa senhora de uns 58 anos que achava um certo senhor atraente e sedutor. Ele era contista e ela adorava ler os textos que ele escrevia, especialmente os eróticos, chegava a ficar excitada. Mas o filho dela a vigiava feito um cão feroz. Ele a impedia de estudar, de frequentar academia – vai que o trainer passava a mão na mãe? –, fazia o possível para asfixiá-la, para tornar a vida dela pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré.
– Você é viúva, tem de viver só pra mim, minha esposa e meu filho – repetia sempre. E mesmo assim… Se ela estivesse muito sorridente ou alegre, brincando com o neto, ele pensava, “Aquela vaca tá pensando em macho”, xingava a mãe, dava-lhe um safanão e a punha de castigo, sem jantar.
Sozinha no quarto – que ela chamava de cela da tortura –, ela fechava os olhos, para sonhar com o contista. Em geral chorava um pouco, mas depois repetia para si mesma:
– Quando eu crescer… não, quando eu crescer não, um dia desses vou ser livre!
Certo dia, a prisioneira – cujo nome era Teresinha – lembrou-se da “sua” cantiga de roda.
– É, vou precisar de três cavaleiros – falou para si mesma. – Já tenho um, faltam dois – e, misturando cantigas de roda, acrescentou – De espada na cinta e cacete na mão. Pra dar uma surra no corno do meu filho!
Por milagre, o carcereiro não lhe confiscava o celular; ela só não podia falar com ninguém diante dele. Assim, o primeiro passo foi aceitar as propostas de amorzinho virtual do contista. Teresinha tinha uma vasta experiência em se tocar, seu corpo era praticamente seu único espaço de liberdade, foi uma delícia. Quando acabaram, ela explicou:
– Olha, adorei transar online contigo. Mas preciso conhecer dois outros caras pela rede e talvez role alguma coisa, no mínimo beijinhos virtuais. Preciso que tu e esses outros dois me libertem. Tu vai ficar chateado por eu flertar?
– De jeito nenhum, querida! Vai em frente!
O próximo lance foi identificar na rede os cavaleiros encantados (príncipe encantado era só o contista) que ajudariam a libertá-la. Deu trabalho, a quantidade de caras nas redes que só queriam sacanagem não está no gibi, mas finalmente descolou dois que pareciam gostar dela de verdade. Teresinha os designava como o poeta (escrevia versos), e o francês (era mesmo francês).
Depois, foi só convencer os dois a não terem ciúmes, que ela gostava mesmo deles, que tão logo estivesse livre iriam deitar e rolar (não havia necessidade de falar disso com o contista, ele aprovava com entusiasmo todo o esquema). E de informá-los que havia um terceiro libertador. Finalmente, ela passou o seu endereço e marcou um local e uma hora para o encontro dos três. Para se reconhecerem, cada um teria nas mãos uma rosa vermelha. A senha era o nome dela e a contrassenha, libertação.
Meia hora depois de se encontrarem, os três chegaram na casa de Teresinha. Pediram para falar com ela. Como esperavam, o filho atendeu, de cara fechada.
– O que vocês querem com a minha mãe?
– Com ela, nada. Contigo…te cobrir de porrada, seu corno!
E começaram a bater. Uma surra de criar bicho. No final, avisaram à vítima, caída por terra:
– Somos amigos de Teresinha. Se algum dia ela não falar conosco, vamos achar que está presa de novo, voltamos e acabamos contigo. A surra de hoje foi só uma amostra!
Finalmente livre, Teresinha pagou a promessa. Encontrou cada um dos três, em dias sucessivos. O que rolou, deixo à imaginação, contida ou desenfreada, de cada um; o contista, o poeta e o francês, perfeitos cavalheiros, nada comentaram. No quarto dia, ela os reuniu e falou.
– Queridos, serei eternamente grata a vocês, meus libertadores. Gostei de conhecer vocês em carne e osso, estarei sempre à disposição – deu um risinho malicioso e foi em frente. – Mas, por favor, não me chamem todos os dias. Tenho uma liberdade recém-conquistada a exercer, e nesse mundo de meu deus há muitos homens interessantes a passar na cara!