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Contrabando político

Escócia será chance de Neymar mostrar que não é um jabuti na Seleção

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Sem a obrigação mercantil, emocional, cidadão ou política de idolatrar alguém com quem não simpatizo, jamais escondi minha falta de apreço pelo cidadão Neymar Júnior. A forma como, às vezes, faz pouco caso do futebol e o modo como ostenta o muito que conseguiu no futebol contrastam com a simplicidade que, pelo menos aparentemente, seus companheiros de Seleção Brasileira demonstram no contato com o povão que paga ingressos caríssimos para lotar os estádios onde jogam ou já jogaram.

Entretanto, é impossível negar que, quando quer, o jogador Neymar sempre se apresentou como atleta acima da média. Apesar disso, por culpa exclusivamente sua, ele jamais será igual a Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Azar o dele. Ele está longe do que a maioria dos brasileiros sonhou como líder da “Amarelinha” na Copa do Mundo. Todavia, não é o jabuti que o imaginário de parte da imprensa e da torcida divulga sem conhecimento de causa. Para quem não lembra, em 1970 a Seleção Brasileira teve de engolir um jabuti fardado.

A diferença é que, mantida a tese de que Neymar é um jabuti no selecionado de 2026, um foi imposto pela força das baionetas e o outro supostamente pelo poder econômico das multinacionais, sejam elas esportivas ou não. Com todo respeito ao Rei Dadá, o Peito de Aço, tricampeão mundial graças à ditadura,espero que a situação de Neymar, o nosso campeoníssimo Cai Cai, seja divergente. Mesmo com a imposição dos generais da época, Dario esquentou o banco durante toda a Copa do México. Neymar está no modo home office, mas ainda tem uma chance de mostrar ao Brasil e ao mundo que pode ser um jabuti útil à Carlo Ancelotti.

Caso consiga jogar o que sabe, ele deverá dividir com o onipotente e onipresente Vinícius Júnior a responsa de elevar a autoestima dos companheiros rumo a um complicado hexa. Se Neymar permanecer no patético estágio de recuperação, aí ficará claro que o dinheiro da Nike, Adidas, Guaraná Antarctica e demais patrocinadores da CBF é tudo, mas não é 100%. Ser desclassificado da Copa antes das quartas de final não está nos planos de nenhum dos mais de 200 milhões de brasileiros. Aliás, será a prova de que, conforme os poetas periféricos, não merecíamos sequer o “équiça”.

Em tempos de disputa eleitoral, diria que, sem margem de erro, enquanto os cofres da CBF estouram de dólares, nas quatro linhas o futebol tem conseguido, no máximo, estourar apenas os nervos dos torcedores. Como diriam os mesmos poetas de periferia, mais vale um jabuti jogando do que dois em cima da árvore. Por analogia, os recém-saídos da puberdade preferirão dizer que mais vale um seio na mão do que dois no sutiã. Sinceramente, torço para que a Seleção Brasileira saia da várzea e pise de uma vez nos gramados reformados por Donald Trump.

Quem sabe o jogo desta quarta-feira (24) contra a Escócia seja o início do fim de nossa instabilidade futebolística. Os deuses do futebol não podem nos abandonar como já abandonaram nossos políticos acostumados a andar de malas, bolsas e bolsos abertos para o dinheiro sujo ou, o que é pior, para a patifaria solidária. Enquanto o jabuti incomoda a Seleção Brasileira, a safadeza pulula na Câmara dos Deputados, reduto da putada que, mesmo dormindo, vive para prejudicar o governo do presidente Lula e, por extensão, o país e a população. É o caso do deputado Zé Trovão (PL-SC), autor de uma emenda criminosa na MP do Frete, enviada pelo governo Lula para reforçar o cumprimento do piso mínimo do transporte rodoviário.

O texto que seguirá ao Senado carrega um acréscimo estranho ao tema: a anistia às multas judiciais, administrativas e civis impostas a caminhoneiros e transportadores que participaram dos bloqueios de rodovias após as eleições de 2022. Prática frequentemente utilizada para favorecer interesses corporativos, alterar regras fiscais ou aprovar benefícios de forma rápida e por baixo dos panos, no jargão legislativo o termo “jabuti” é um sinônimo de “contrabando” parlamentar. O vocábulo deriva do famoso ditado “jabuti não sobe em árvore”. Se está lá ou foi enchente, ou foi mão de gente”. Nada a ver com Neymar, que está na Copa porque sabe jogar. Tomara que ele jogue, faça gols, vença e afaste de vez a possibilidade de alguém achar que ele foi um contrabando da Nike.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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