Curta nossa página


Segredos da vida

Espelho se vinga na velhice das caretas que fizemos para ele na infância

Publicado

Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Filósofos de anteontem, de ontem e de hoje não escondem que o tempo é visto como um grande inimigo do homem. Entre outras coisas que representam o fim de tudo, que muda nosso corpo, tira nossa beleza e faz a força sumir. Pior é que o tempo afasta pessoas queridas e deixa lembranças de dias que não voltam mais. Entretanto, ele também pode ser amigo. Por exemplo, com os anos a gente aprende, cresce e fica mais sábio. Além disso, a sucessão de dias e noites ajuda a sarar feridas e a superar dores do passado.

Resumindo, o valor da vida é saber que o tempo curto faz cada segundo valer a pena. Eu não luto contra a finitude. Como sei que um dia nós vamos nos encontrar, não fujo da morte e nem ela me persegue. Ou seja, ninguém escapa do tempo. Muito menos por temê-lo e muito mais para aproveitá-lo, descobri a tempo que viver é tão bom que sobra pouco tempo para qualquer outra coisa. Ou seja, como o tempo voa, aprendi a voar com ele. Também percebi que o período que passamos rindo é o tempo que passamos com os deuses.

Por isso, digo, repito, assino embaixo, reconheço firma e, se precisar, faço um documento atestando que a inteligência e o bom humor são os maiores encantos da vida. A primeira seduz e o segundo desarma. O resultado é o nocaute das caras feias do dia. Que bom aceitar a infância como a época em que fazemos caretas para o espelho. Considerando a lei de reciprocidade, a velhice é quando o espelho se vinga. Meu medo maior é o espelho se quebrar. É por essa razão que, hiperbólicamente, morro dizendo que o humor é a única qualidade divina do homem.

Depois de trocar o choro pelo riso definitivo e a juventude pela seriedade da terceira idade, notei que enxergar as coisas boas e ruins numa perspectiva engraçada constitui um truque perfeito para a arte de viver bem. Recentemente, ao checar o valor de uma sessão de terapia, achei mais vantajoso endoidar de vez. Hoje, sinceramente, já não me importo em ficar bem na foto. Me sentirei ótimo se o resultado do Raio-X ou da ressonância for mais ou menos.

Como parto do princípio de que expectativa é igual a paçoca, do nada esfarela tudo, o que posso garantir às filhas e netos é que tudo está saindo conforme o planejado. Meu segredo é relaxar, porque, além de saber que a vida é uma fonte inesgotável de frustrações, tenho certeza de que, daqui para frente, é só para trás. Aos que torcem pela minha derrubada, informo que vocês não podem mudar meu passado, muito menos estragar meu futuro. Ou seja, caso eu caia, aproveitarei a queda para tirar uma soneca.

Ainda sobre o tempo, acho que realmente envelheci porque continuo apreciando as coisas antigas. Lembro bem que, antigamente, as mulheres cozinhavam igual à mãe. Hoje, estão bebendo igual ao pai. Na minha infância, as bundas vinham dentro das calcinhas. Hoje, a calcinha vem dentro da bunda. O mais triste é que, naquele tempo, os cartazes nas ruas, com rostos de criminosos, ofereciam recompensas. Hoje em dia, pedem votos. Como sei que o que está ruim pode piorar, dos cinco títulos mundiais da Seleção Brasileira ouvi um e assisti três. Meus netos dificilmente verão um.

………..

Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.