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Nossa vaca

Estrela

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles - Foto Francisco Filipino

Conversando com minha irmã sobre gado, lembrei-me de uma vaca da nossa infância.

Estrela. Era o nome dela. Estrela foi a melhor vaca que conheci na minha vida.

Como era linda, a Estrela! Ela era branca, com uma mancha preta na testa, daí o nome Estrela. Não sei se ela nasceu lá na fazenda ou meu pai a comprou, ainda novilha, só sei que, desde sempre, ela fez parte das nossas vidas.

Éramos em dez irmãos, dois anos, a diferença de idade de um pro outro, então, era uma creche e muita danura, brincadeiras e muito trabalho. Cada um tinha sua tarefa. Só podíamos brincar depois de cumprir as tarefas. E ai de nós se fizéssemos mal feito.

O lema da minha mãe era: primeiro a devoção, depois a diversão. Então, de manhã, geralmente, estávamos muito ocupados, cada um com sua tarefa, mas depois do almoço… Ah! Depois do almoço era só diversão.

Não sei como essa trupe não colocava fogo naquela fazenda. Como brincávamos… Visitávamos os vizinhos, sempre um longe do outro. Não era como hoje em dia, que as fazendas estão bastante povoadas.

Os vizinhos, sempre tios, avós e raramente, muito raramente, um que não era parente. O único que não era parente que me lembro era o Bastião de Zé Nedina, que tinha vindo da Bahia, para aquelas bandas ainda pequeno. Vira com a avó, que era a Nedina e o pai que era o Zé. Bastião já era adulto, bem adulto, a gente não chegou a conhecer a avó Nedina e nem o pai Zé.

Bem, voltando ao assunto do começo, Estrela era nosso brinquedo favorito. Ela era tão mansa, que a gente a montava, três, quatro crianças de uma só vez, abraçávamo-na de baixo para cima, agarrando-a pela barriga e parecia que ela sorria. Mamávamos nas tetas dela. Fazíamos o que queria com ela, mas a tratávamos com especialidade.

A alimentação dela era diferenciada. Nós socávamos milho no pilão, misturava o sal, praticamente colocávamos na boca dela. Só ela que recebia este carinho alimentício.

Para ter ideia de quanto era mansa, quando ela estava prenha, quase nos dias de parir, ficávamos vigiando-a. Quando ela sumia, a gente, as crianças, que ia procurá-la. Quando achávamos, ela parecia nos falar:

— Olha que lindo, meu bebê!

Ficávamos um pouco com ela, ia chegando devagarinho, passando as mãos nela e só depois chegávamos perto do bezerrinho. A gente também tinha todo um jeitinho de conquistá-la. Deitávamos perto do bezerrinho, sempre com gestos sutis, para ela sentir confiança na gente. Íamos a enganando até pegar o bezerrinho nos braços, como um bebê humano.

Estrela não brigava, só não desgrudava de quem estava com o bebê no colo. Chegava, lambia o bezerrinho, como dissesse:

—Cuidado com o meu bebê.

Levávamos Estrela e o filhote para o lugar reservado para as mamães vacas, levando o bezerrinho no colo, ora um, ora outro, e Estrela super atenta, mas sem nenhuma agressão.

Não me lembro desde quando começamos a fazer isso, com certeza, desde sempre e acompanhámos todas as vezes que ela foi mãe.

Estrela só dava leite pro filhote e pra nós. O leite dela não era usado pra fazer nada, além de amamentar o filhote e a nós.

Meu pai nunca teve coragem de vender a Estrela. Ele dizia que era nosso brinquedo.

Ela morreu de velha. No final já estava emagrecendo, ficando com o pelo arrepiado, até que, um dia, morreu de morte natural. Quando chegávamos à fazenda, chamávamos e ela vinha quase correndo.

Já éramos adultos, mas foi como se tivesse morrido uma pessoa. Teve enterro, flores, faltou ter velas. Ela tinha o mesmo amor por nós, igual ao que tínhamos por ela. Ela era uma vaca humana ou uma humana vaca.

Ai, que saudade da Estrela!!!!

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