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Calçadas largas

Eu amo Porto Alegre

Publicado

Autor/Imagem:
Dona Irene - Foto Francisco Filipino

Eu amo Porto Alegre
nas calçadas largas,
no espaço que a cidade deixa
entre um passo e outro,
como se houvesse tempo
para pensar enquanto se caminha.

Amo as ruas na primavera,
cheirando a pólen e sol,
as árvores devolvendo cor às esquinas,
o céu abrindo devagar
depois de tantos dias cinzentos,
e a cidade parecendo, por um instante,
mais leve do que ela mesma.

Mas há dias em que Porto Alegre me cansa.
O verão demora demais sobre a pele,
o calor pesa nas horas,
e eu sinto falta de alguma delicadeza
que não venha só do vento.

Também me desanima
a timidez das pessoas,
esse jeito de guardar afeto,
de medir palavras,
de deixar o carinho escondido
atrás de alguma distância.

E então eu amo menos.
Reclamo da cidade,
prometo que não sentirei falta,
digo que há outros lugares
mais fáceis de querer.

Mas basta ir embora
para lembrar das calçadas,
das árvores,
da luz atravessando as folhas,
do Guaíba guardando o fim da tarde
como quem guarda um segredo.

Porto Alegre é assim comigo:
um amor que às vezes aperta,
às vezes afasta,
às vezes pede distância
para continuar existindo.

Talvez eu não queira amá-la todos os dias.
Às vezes,
eu gosto mesmo
é de sentir saudade de Porto Alegre.

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