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Prosa e soneto

Eu sou o indivizível

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Sou a sombra que dança entre os véus rasgados da lua, quando o tempo suspende sua respiração e apenas o eco do que nunca ousou ser nomeado permanece. Sou o sopro que atravessa as cortinas ao amanhecer, a palavra interrompida nos lábios que se calam para não ferir o silêncio. Sou o perfume secreto do jardim que floresce na noite, invisível ao olhar, e a pétala que desfalece ao primeiro raio de sol. Habito o intervalo entre o desejo e a eternidade, a vertigem do gesto que hesita, o sabor paradoxal do fruto que pende do galho da impossibilidade. Não me busque nos lábios, mas na pausa que os sucede. Não me persiga na posse, mas na saudade que antecede e dilacera depois. Sou o que se revela por trás da porta selada, o relâmpago que rasga o horizonte por um instante e mergulha tudo em trevas mais densas. Sou o amor sem pátria, sem calendário, a maré que se ergue contra os muros da razão. E sou, sobretudo, a cicatriz luminosa na alma que ousou contemplar, ainda que por um segundo, o sol do inalcançável.

Soneto

Sou o perfume da flor que nasce oculta,
que se abre ao vento em segredo profundo,
sou a palavra que o silêncio oculta,
a sombra que perturba o claro mundo.

Sou o pulsar que ecoa no templo antigo,
quando o desejo invade o pensamento,
sou o fruto que amadurece lento
no Éden velado, sem abrigo.

Sou o suspiro que se perde em brasa,
o caminho esquecido pela estrada,
o fogo que se apaga em lágrimas.

Sou o que a lei condena em sua asa,
o que a alma sonhou na madrugada:
o amor indizível que não se apaga.

Décimos do Indizível

Sou a raiz que rompe a muralha,
o desejo que nasce da vertigem,
a seiva que escorre na batalha
entre virtude e sua origem.

Sou o jardim que o inverno não consome,
flor que floresce na agonia,
fruto que jamais se curva ao nome,
culpa doce, crepúsculo que seria
luz se o dia não ousasse sua forma.

Sou o rastro que o tempo não apaga,
a memória que se expande nos sonhos,
a linha que o vento sempre rasga,
o eco que retorna aos medonhos.

Sou o véu que cobre a verdade,
a chave sem porta, o reflexo sem nome,
o sonho invicto que planta saudade
na encosta onde o coração se consome.

Versos Ocultos

Sou a sombra que floresce em teu jardim
quando a lua repousa na colina,
a sede que se anuncia no silêncio
e a palavra que fere tua retina.

Sou o fogo que arde sob a neve,
a razão que domina tua escolha,
o espinho que repousa em tua cama
e ilumina o sonho que se recolha.

Sou o que não se revela ao dia,
o amor que se alimenta nas sombras,
a melodia que só o coração sabia
e que a noite eterniza em suas ondas.

Sou o nome que o vento não pronuncia,
a fronteira que ninguém atravessou,
a maré que recua e continua,
a promessa que a aurora dissolveu.

Sou o jardim fechado, a armadilha,
o fruto que jamais se entregou,
a verdade escondida na vigília,
o fogo secreto que ninguém acendeu.

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