Curta nossa página


Silêncio de Rússia e China

EUA e Israel atacam Irã e mundo vê o efeito dominó

Publicado

Autor/Imagem:
Antônio Albuquerque - Reprodução/Sputniknews

O ataque conjunto de tropas dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã neste sábado (28) inaugura uma nova e perigosa fase de tensão no Oriente Médio. O bombardeio, que segundo fontes militares teve como alvo instalações estratégicas ligadas ao programa nuclear iraniano e centros logísticos da Guarda Revolucionária, recoloca o mundo à beira de uma escalada militar de proporções imprevisíveis.

A ofensiva ocorre após semanas de ameaças explícitas do presidente norte-americano e de reiterados alertas do governo israelense de que não tolerariam avanços adicionais do programa nuclear iraniano. A justificativa oficial repousa na “autodefesa preventiva” e na necessidade de impedir que Teerã consolide capacidade nuclear militar.

O Irã, por sua vez, classifica o ataque como “ato de guerra” e promete retaliação. O Parlamento iraniano convocou sessão extraordinária, enquanto líderes militares falam em resposta “proporcional e inevitável”. O risco imediato é o alastramento do conflito para além das fronteiras iranianas, atingindo bases americanas na região, rotas de energia no Golfo Pérsico e, eventualmente, aliados de Washington.

Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta incômoda: onde estão Rússia e China? Tanto Moscou quanto Pequim mantêm relações estratégicas com o Irã, seja no campo energético, militar ou diplomático. Ambos os países têm reiterado, em fóruns internacionais, oposição a intervenções unilaterais e defesa da soberania dos Estados nacionais. A ofensiva deste sábado coloca essa retórica à prova.

A Rússia, que enfrenta isolamento ocidental desde a guerra na Ucrânia, vinha aprofundando laços com Teerã, inclusive com cooperação militar e tecnológica. Já a China consolidou acordos de longo prazo com o Irã na área de infraestrutura e energia, além de se apresentar como mediadora global alternativa ao eixo Washington–Bruxelas.

Se a defesa da multipolaridade é mais do que discurso, este é o momento de Moscou e Pequim demonstrarem coerência diplomática. Permanecerem em silêncio ou limitarem-se a notas protocolares poderá enfraquecer sua narrativa de contraponto à hegemonia ocidental.

É previsível que o caso seja levado ao Conselho de Segurança da ONU. Rússia e China, membros permanentes com poder de veto, terão oportunidade concreta de se posicionar. Poderão propor resoluções de condenação, pressionar por cessar-fogo imediato ou convocar negociações multilaterais. A omissão, contudo, poderá ser interpretada como cálculo estratégico para evitar confronto direto com os Estados Unidos enquanto preservam seus próprios interesses geopolíticos.

O mundo vive o medo de um efeito dominó, porque o ataque reativa temores antigos: bloqueio do Estreito de Ormuz, disparada do petróleo, envolvimento de milícias aliadas ao Irã em diversos países e ampliação do conflito para Israel e Líbano. O efeito dominó pode atingir economias fragilizadas e comprometer cadeias globais de abastecimento.

Neste contexto, Rússia e China não são meros observadores. São atores centrais de um tabuleiro em que a estabilidade internacional depende, cada vez mais, da capacidade de grandes potências conterem impulsos militares e forçarem a diplomacia.

Se o mundo caminha para uma nova Guerra Fria fragmentada — com múltiplos polos de tensão —, o silêncio também se torna uma escolha política. E, diante das bombas que caem sobre Teerã, escolher o silêncio é, inevitavelmente, tomar partido.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.