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MARINA DUTRA

Existem perdas que não cabem em palavras

Publicado

Autor/Imagem:
Marina Dutra

Quando a chuva leva a casa, os objetos, as lembranças e a rotina, não é apenas o espaço físico que desaparece. Vai embora também a sensação de estabilidade. Aquilo que parecia garantido, o lugar de descanso, o cheiro da própria casa, os pequenos detalhes do dia a dia, de repente se transforma em ausência.

Recentemente, as fortes chuvas que atingiram a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, reacenderam uma dor que, na verdade, ultrapassa qualquer geografia: a experiência humana de perder o chão e precisar reconstruir a vida quando nada parece estável.

Porque tragédias expõem algo universal. Não apenas a perda material, mas a ruptura da segurança emocional, do pertencimento e da sensação de continuidade da vida como ela era conhecida até então.

Há uma dor muito particular em ter que sair de casa às pressas. Recolher roupas em sacolas improvisadas, tentar salvar documentos, olhar ao redor sem saber o que poderá ser recuperado. Para muitas pessoas, soma-se ainda a angústia de não ter para onde ir, de depender da ajuda de outros enquanto se tenta processar a perda.

A casa não é apenas uma construção. É memória, identidade, proteção emocional. É onde a vida acontece de forma simples e íntima. Quando esse espaço se rompe, não se perde somente o que é material, perde-se também a sensação de segurança interna, de continuidade e de pertencimento.

É natural que surjam medo, tristeza, revolta, desorientação e até um estado de entorpecimento emocional. O trauma não é apenas o momento da perda, mas tudo o que vem depois: a incerteza, a reconstrução, o cansaço emocional e a tentativa de reorganizar a vida enquanto ainda se está em luto pelo que foi perdido.

Recomeçar é respirar em meio ao caos.

É aceitar ajuda.

É permitir que alguém estenda a mão.

É descobrir, aos poucos, que a vida continua mesmo quando não era assim que deveria continuar.

A reconstrução material levará tempo.

A reconstrução emocional, talvez mais.

Há choque.

Há tristeza profunda.

Há sensação de injustiça.

E há um vazio difícil de nomear.

Para quem perdeu tudo, o recomeço não é uma escolha bonita e inspiradora. É uma necessidade dura. É acordar sem saber por onde começar. É lidar com o cansaço emocional enquanto ainda se tenta resolver questões práticas urgentes.

E, ainda assim, em meio à devastação, algo essencial costuma emergir: a solidariedade. Mãos que acolhem, vizinhos que oferecem abrigo, pessoas desconhecidas que se mobilizam, comunidades que se reorganizam. A esperança, nesses momentos, não aparece como euforia, mas como presença, cuidado e humanidade compartilhada.

Recomeçar, na prática, pode ser permitir-se ser cuidado hoje para ter forças amanhã. Pode ser aceitar que a vida não volta ao que era, mas pode, aos poucos, encontrar novas formas de existir com dignidade, segurança e sentido.

Para quem não foi diretamente atingido, existe também um cuidado importante com a própria saúde mental. Acompanhar as notícias é compreensível, mas a exposição constante a imagens de dor pode ampliar a sensação coletiva de medo e impotência. Mais transformador do que consumir tragédia repetidamente é direcionar energia para atitudes que ajudam: apoio, solidariedade, presença e cuidado com quem atravessa momentos difíceis.

Cuidar do próprio equilíbrio emocional não é indiferença, é responsabilidade. Pessoas emocionalmente fortalecidas conseguem oferecer ajuda mais consistente e verdadeira.

Que a dor dessas perdas seja respeitada sem pressa de ser superada.

Que cada pessoa encontre acolhimento, dignidade e suporte para atravessar seus próprios processos de reconstrução.

E que, mesmo quando tudo parece interrompido, a vida encontre caminhos possíveis de continuidade.

Porque recomeçar não significa esquecer.

Significa permitir que a esperança caminhe ao lado da dor até que, pouco a pouco, a vida volte a ter espaço para existir, de uma nova forma, com novos significados, sustentada pela força silenciosa que nasce quando, apesar de tudo, seguimos em frente.

………….

Acompanhe no perfil @sersuperconsciente às lives “Terapias que reconectam”, todas às quartas-feiras, às 19h.

Marina Dutra – Terapeuta
E-mail: sersuperconsciente@gmail.com

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