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Negócio das Arábias

Falência do futebol não é desculpa para deixar de torcer pela Seleção

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

A gente pode não gostar do Neymar Junior, pode questionar o fato de o Carlo Ancelotti ter escalado um time diferente em cada uma das 14 partidas que já comandou a Seleção, achar que Raphinha, Casemiro e Paquetá têm de ser barrados e até esbravejar contra os mercantilistas cartolas, cuja pressa em engordar as próprias contas bancárias contribuiu para a apregoada falência do futebol brasileiro. São constatações que nos entristece como cidadão, como sociedade e, principalmente, como contribuinte. No entanto, do mesmo modo que a morte não é desculpa para alguém deixar de ver o Fla Flu, nada do que dizem deve servir de desculpa para deixarmos de torcer pela Seleção Brasileira.

Antiga referência ao estilo clássico dos atletas brasileiros, o chamado futebol arte, baseado na improvisação, no drible e na fluidez, virou um negócio das Arábias. Estimulado pela força e pela utópica modernização da tática europeia e das inúteis estatísticas dos técnicos formados bem longe dos gramados, nossa técnica e o brilho individual deram lugar à eficiência das estratégias, dos planos mirabolantes e dos esquemas inventados por tecnólogos. Um antigo jargão futebolístico dizia que “a bola pune”. Hoje, mesmo sendo o único país a participar de todas as 23 Copas do Mundo, o Brasil foi punido pela incapacidade dos dirigentes.

Quem viveu o tricampeonato de 1970 e o “passeio” de nossos “bailarinos” pelos estádios da Espanha em 1982 sabem do que estou falando. Sinceramente, ainda não acho que falimos como mestres do esporte bretão. Todavia, não há como negar que, vivos fossem, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Sócrates, Roberto Dinamite se juntariam aos septuagenários ou octogenários Tostão, Clodoaldo, Jairzinho, Júnior, Zico, Falcão, Éder Aleixo, Careca, Toninho Cerezo e Gerson, entre outros, para, mesmo de olhos fechados, alcançarem o tão sonhado hexa. No mínimo, a geração do futebol arte daria aula para qualquer um dos selecionados por Ancelotti.

A diferença entre o ontem e o hoje é, além da disparidade salarial, fundamentalmente o contraste entre o jogo criativo, romântico e individualista que marcou a identidade do futebol mundial, particularmente o brasileiro, e o modelo atual de negócios robotizados, tática e financeiramente complexo do esporte. O amadorismo administrativo de agremiações históricas e o maciço envolvimento de “empresários” e do mercado financeiro no futebol é o absurdo enriquecimento dos jogadores e o crescimento das bilionárias dívidas dos clubes. Para sintetizar, ao contrário dos citados acima, o bilionário Neymar Junior nunca ganhou nenhum título para o Brasil.

Não tenho números comprobatórios, mas acho que 90% dos jogadores nativos e importados em atividade no Brasil pertencem a uma organização comercial. Ou seja, os clubes “fabricam” os atletas, mas quem enriquece são os atravessadores. Pior do que isso é que, para evitar a insolvência total e a falência legal, muitos times de ponta tiveram de recorrer ao mafioso modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), repassando o controle a investidores e grupos empresariais internacionais. Com certeza, atualmente Corinthians, Botafogo e Atlético Mineiro operam com passivos que beiram a falência estrutural.

O resultado também é clássico: os tais investidores faturam com a fuga precoce das “joias” produzidas nas categorias de base para a Europa, enquanto os clubes caminham celeremente para o buraco negro. Resumindo a ópera, faz tempo que esqueceram que o futebol no Brasil é uma poderosa manifestação cultural, um pilar da identidade nacional e um fenômeno social. Enfim, deixamos de ser a “pátria de chuteiras” para sermos conhecidos pelo envelhecido e viciado futebol do 7 a 1. Como sou patriota, não desisto nunca e torço pelo brio da juventude. Oxalá Endrick, Rayan e Luiz Henrique se juntem a Vinicius Jr. para nos tirar da solidão do penta. Eu acredito! E daí que Messi tenha feito três gols e Neymar mais uma filha?

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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