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Tudo em família (até demais)

Feijão no fogo e bomba na UTI

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tia Lúcia, esposa do irmão de meu pai, quando no leito de morte, pediu para falar em particular com minha mãe. As duas viviam em intrigas tolas, quase chegaram às vias de fato duas ou três vezes, o que obrigou os familiares a não as convidar para os mesmos eventos. Nem sei qual foi o estopim dessas intrigas, até porque prefiro manter minha sanidade mental.

Mamãe, turrona que nem mula, disse que não ia, a despeito das súplicas do meu pai para deixar as mágoas para trás. Ih, não adiantou, como se essa intervenção do marido fosse que nem gasolina na fogueira.

— Aurélio, logo tu, que deveria estar ao meu lado, me pede uma coisa dessas? Não vou nem que a vaca tussa!

Papai viu em mim o resquício de esperança para que minha mãe fosse até tia Lúcia para, enfim, aparar as arestas. Covarde para essas coisas, preferi me esquivar.

— Ah, pai, se a mãe não quer, devemos respeitar a sua vontade.

— Mas, Alice, a sua tia está nas últimas. O que custa? Isso é questão humanitária.

Irredutível, mamãe se trancou no quarto e ordenou que ninguém a perturbasse pelos próximos 38 anos. E foi o que fizemos até o início da noite, quando a campainha tocou. Era o tio Juca, marido de tia Lúcia.

Depois dos beijos e abraços costumeiros, o meu tio, ainda de pé, disse que iria tentar falar com minha mãe. Papai e eu ainda tentamos dissuadi-lo da ideia, mas foi inútil.

— Meus queridos, não custa nada tentar. O não já temos.

Enquanto tio Juca foi em direção ao quarto, meu pai e eu nos entreolhamos. Dois toques leves na porta.

— Salete, sou eu, o Juca.

Milagrosamente, a porta se abriu, meu tio entrou. Nada de gritos, nem mesmo palavras exaltadas. Quase meia hora depois, minha mãe e tio Juca saem de mãos dadas. Ele, em tom vitorioso, anunciou:

— A Salete vai conversar com a Lúcia amanhã.

Papai e eu ali, boquiabertos, não acreditávamos, até que mamãe me arrancou do transe.

— Alice, só vou se você for comigo!

É óbvio que fiz cara de espanto, o que não surtiu efeito, que nem dar um peteleco em uma onça para impedir que ela avance. E lá fui eu arrastada por minha mãe para a UTI onde tia Lúcia agonizava seus derradeiros instantes.

— Que bom que você veio, Salete.

— Hum! Diga logo o que você quer, Lúcia, que deixei o feijão no fogo.

— Te peço perdão.

O sorriso indiscreto da minha mãe era tão flagrante, que chegou a me incomodar. E foi aí que eu quis apaziguar a situação. Pra quê?

— Tia Lúcia, tenho certeza de que as coisas entre a senhora e minha mãe estão resolvidas.

— Não, Alice, não estão. Preciso confessar que algo terrível. A Maria Clara não é sua prima.

— Como assim, tia?

— Ela é filha do Aurélio.

— Do meu pai?

— Isso mesmo. A Maria Clara é tua irmã.

Enquanto eu absorvia aquela pancada no estômago, eis que minha mãe tomou a frente.

— Lúcia, isso não é novidade pra mim. Já sabia disso há tempos. E você, Alice, pode ficar tranquila, que a Maria Clara não é sua irmã, ela é sua prima.

Tia Lúcia e eu, cada uma mais surpresa do que a outra, contemplávamos aquela face maligna da minha mãe, enquanto ela parecia absorvida pela soberba. Ela saboreou por um instante aquele momento até que, finalmente, revelou algo que me deixou ainda mais perplexa.

— Alice, na verdade, você é filha do Juca.

Enquanto eu estava ali ouvindo toda aquela loucura, deu para perceber que tia Lúcia e minha mãe nunca fariam as pazes. E foi isso que aconteceu, pois minha tia faleceu naquela noite.

Se estou bem? Sabe, eu amo o meu tio-pai. Todavia, tenho medo de reuniões da minha família. Pavor dos segredos que provavelmente ainda estão escondidos. Definitivamente, não quero saber de mais nada!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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