Curta nossa página


O Lado B da Literatura

Fernando Sabino e a vida no compasso dos amigos

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Arquivo

Antes de imaginar Fernando Sabino diante de uma máquina de escrever, experimente colocá-lo atrás de uma bateria, com bumbo, caixa, pratos, tons e surdo. As baquetas nas mãos, o corpo atento ao ritmo, os olhos acompanhando os outros músicos. A imagem talvez explique alguma coisa de sua literatura. Sabino escrevia como quem conhecia o instante certo de entrar numa conversa, interromper o silêncio, acelerar a narrativa ou produzir, com uma frase breve, o impacto final.

O jazz não foi uma curiosidade passageira em sua vida. Fernando Sabino conhecia o gênero, admirava grandes instrumentistas e tocava bateria. Chegou a se apresentar como convidado da Ramblers Traditional Jazz Band. Seu enterro, em 2004, foi acompanhado pela música dos amigos. Não poderia haver despedida mais coerente para um homem que encontrou na literatura e no jazz duas formas diferentes de improvisar sem perder o ritmo. Drummond, que era afeito ao silêncio de pedra dos mineiros, relata em seu Observador de Escritório a noite em que foi recebido no apartamento do amigo para uma sessão infernal do instrumento.

Fernando Tavares Sabino nasceu em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923. A capital mineira de sua infância ainda guardava dimensões provincianas, embora tivesse sido planejada para representar a modernidade. Entre ruas, quintais, escolas, travessuras e assombros, formou-se o menino que reapareceria muitos anos depois em O menino no espelho.

A mineiridade de Sabino não está apenas nos lugares que descreveu. Está em determinada maneira de observar o mundo: a atenção ao comportamento humano, o humor que não se anuncia, a desconfiança diante das solenidades e a capacidade de descobrir uma história inteira escondida numa ocorrência aparentemente insignificante.

Ainda adolescente, foi nadador e chegou a conquistar títulos importantes. Também começou cedo na literatura. Publicou Os grilos não cantam mais, seu primeiro livro, em 1941. Um exemplar chegou às mãos de Mário de Andrade, que respondeu ao jovem escritor. Nascia uma correspondência decisiva para sua formação.

Mas nenhuma história sobre Fernando Sabino pode ser contada sem falar de amizade.

Em Belo Horizonte, ele se uniu a Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. Os quatro seriam chamados de “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. A expressão, criada por Otto, traduzia uma amizade feita de admiração, cumplicidade, divergências, conversas intermináveis e frequentes desentendimentos.

Não formavam uma confraria pacífica. Discutiam literatura, religião, política, amor e os próprios projetos. Brigavam como somente brigam aqueles que sabem que continuarão ligados depois da discussão. A amizade, para eles, não significava concordância permanente. Era uma forma de confronto e também de aprendizado.

Parte desse universo entraria em O encontro marcado, publicado em 1956. No romance, Eduardo Marciano procura um sentido para a existência enquanto atravessa amizades, ambições literárias, crises espirituais e desencontros. Há muito de Sabino naquela inquietação, embora seja um erro reduzir o livro a uma simples autobiografia disfarçada.

Quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1944, Fernando Sabino ampliou extraordinariamente seu círculo. Passou a conviver com Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt, entre muitos outros.

Com Drummond, o vínculo ultrapassou a origem mineira. Sabino dirigiu O fazendeiro do ar, documentário dedicado ao poeta de Itabira. Os dois compartilhavam a percepção de que os acontecimentos comuns podiam revelar dimensões inesperadas da existência. Drummond extraía do cotidiano uma espécie de perplexidade filosófica. Sabino frequentemente encontrava nele o movimento, a graça e o absurdo.

Augusto Frederico Schmidt era mais velho, já consagrado e dono de uma personalidade tão generosa quanto teatral. Certa vez, leu um poema novo para os quatro mineiros. Diante do silêncio dos rapazes, perguntou se eles o consideravam decadente. Paulo Mendes Campos respondeu afirmativamente em nome do grupo. Schmidt agradeceu a franqueza.

A história contém alguma coisa daquele ambiente literário: escritores jovens podiam ser recebidos por nomes consagrados, beber com eles, ouvir seus poemas e, no momento seguinte, dizer que não gostaram. A literatura ainda era uma conversa pessoal, conduzida em apartamentos, bares, redações e madrugadas.

Com Clarice Lispector, Fernando Sabino construiu uma amizade particularmente profunda. Os dois trocaram cartas durante anos, discutindo literatura, inseguranças, projetos, dificuldades editoriais e os impasses da criação. Essa correspondência seria reunida em Cartas perto do coração.

Sabino e Clarice eram escritores muito diferentes. Ele buscava a clareza, o movimento e a construção precisa da narrativa. Ela avançava sobre regiões em que a linguagem parecia perder o chão. Talvez justamente por isso tenham se compreendido tão bem. Um reconhecia no outro a seriedade do ofício e a solidão que existe mesmo quando o escritor está cercado de pessoas.

Pablo Neruda também passou por sua vida. Em 1945, quando o poeta chileno visitou o Rio de Janeiro, Sabino participou do grupo de escritores e artistas que o recebeu. Houve festas, leituras, conversas e uma noite memorável em que Neruda, Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos ajudaram a devastar a adega de Augusto Frederico Schmidt.

A relação, contudo, não permaneceu inteiramente harmoniosa. Anos depois, uma crônica de Sabino sobre Neruda provocou um forte estremecimento e quase encerrou a amizade. Sabino podia admirar uma figura pública e, ainda assim, submetê-la ao olhar indiscreto do cronista. A amizade não lhe retirava a liberdade de perceber o ridículo, a contradição ou a humanidade dos amigos.

Muitos deles acabariam transformados em personagens de Gente, livro no qual reuniu perfis e lembranças de escritores, músicos, pintores, cineastas, arquitetos e outras personalidades que conheceu. Ao escrever sobre os outros, Sabino também compôs, indiretamente, um retrato de si mesmo.

Há escritores que constroem sua obra pela solidão. Fernando Sabino também conheceu a solidão, mas produziu parte essencial de sua literatura dentro da convivência. Precisava das conversas, das cartas, das viagens, das histórias ouvidas e das situações em que as pessoas, distraídas de sua importância, revelavam quem realmente eram.

Sua crônica nasce desse olhar. Um homem fica nu do lado de fora do apartamento. Alguém se atrapalha numa repartição. Uma conversa toma um rumo inesperado. O que parecia banal adquire movimento, humor e alguma forma discreta de revelação.

Talvez nisso o cronista e o baterista fossem a mesma pessoa. Ambos precisavam escutar os outros, perceber o compasso e esperar o momento exato. Sabino sabia que uma batida antecipada podia arruinar a música, assim como uma palavra excessiva podia destruir uma crônica.

Por trás da leveza de sua prosa havia técnica, disciplina e um ouvido extraordinário para o ritmo das pessoas. Fernando Sabino fez da amizade matéria literária, do cotidiano uma aventura e da escrita uma longa sessão de jazz, na qual cada encontro oferecia a possibilidade de uma nova história.

O encontro entre o mineiro e a cidade do Rio de Janeiro que escolheu para viver pode agora ser percorrido em O Rio de Fernando Sabino: passeio afetivo pela cidade, de Teresa Montero, lançado recentemente pela Editora Autêntica. Ao mapear os 56 anos em que o escritor morou no Rio, atravessando 16 bairros ligados à sua trajetória, a autora revela que a cidade não foi apenas cenário de sua vida e de suas crônicas. Foi também personagem, companheira e território afetivo de um mineiro que aprendeu a reconhecer, nas ruas cariocas, o ritmo humano e imprevisível de sua literatura.

…………………
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.