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Balcão Brasil

Festas, segredos e o mercado da chantagem

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

Não se trata de champanhe nem de moral privada. Trata-se de poder e da forma como ele se reorganiza quando acredita estar protegido pela exclusividade e pela cumplicidade.

Madrugadas tropicais, ambientes seletivos, convidados que durante o dia decidem bilhões, julgam destinos ou influenciam políticas, e à noite compartilham confidências excessivas sob o verniz da descontração. Bebidas raras, euforias químicas lícitas e ilícitas, risos altos demais para serem ingênuos. A informalidade parece leve. Não é.

Ali se constroem vínculos que não passam por protocolo algum. Ali se mede lealdade. Ali se acumulam fragilidades. E, sobretudo, ali se produzem segredos.

Quando surgem rumores de gravações, mensagens comprometedoras ou registros inconvenientes, o incômodo não nasce do puritanismo. Nasce da equação do poder. Quem sabe o quê. Quem pode expor quem. Quem passa a depender de quem para que nada venha à tona.

O mundo já assistiu a essa engrenagem operar em escala global. O nome de Jeffrey Epstein não ficou marcado apenas pelo luxo, mas pela teia que transformava vulnerabilidade em influência e silêncio em proteção recíproca.

Não se trata de equiparar personagens. Trata-se de reconhecer um padrão que se repete quando influência, dinheiro e intimidade estratégica ocupam o mesmo espaço.

Intimidade cria fragilidade. Fragilidade cria dependência. Dependência cria chantagem.

Chantagem raramente vem acompanhada de ameaça explícita. Ela funciona na lembrança constante de que alguém guarda uma parte da história. Blindagem cruzada nasce assim. Cada qual protege o outro porque cada qual tem algo a perder.

O resultado atravessa estruturas. Decisões deixam de ser apenas técnicas e passam a ser relacionais. Julgamentos podem ganhar zonas de sombra. Negócios encontram atalhos. Silêncios tornam-se ativos valiosos.

O que começa como confraternização termina como mecanismo.

O Brasil já viu essa normalização da promiscuidade elegante em outros momentos. O espanto público é breve. A narrativa rapidamente recorre à confortável defesa da vida privada. Curioso como a privacidade vira trincheira quando envolve gente grande demais para errar sozinha.

O problema não é a festa.

O problema é quando as instituições passam a conviver com a possibilidade de que seus protagonistas estejam presos a segredos compartilhados.

Um sistema sustentado por vulnerabilidades mútuas não é apenas frágil. É manipulável.

E quando poder político, poder econômico e poder judicial começam a orbitar ambientes onde a lealdade depende do silêncio, o risco deixa de ser individual.

Passa a ser institucional.

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