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Dr. Leo

Fila, o gigante de coração brasileiro

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Autor/Imagem:
Leonardo Bernar - Foto Francisco Filipino

Se você caminhar pelo interior do Brasil e avistar um cão de porte imponente, olhar sereno e pele generosa, estará diante de um Fila Brasileiro. Mais do que um simples animal de guarda, este cão é um patrimônio vivo da nossa cultura, carregando em sua genética a força necessária para desbravar um continente e a doçura de quem se tornou o melhor amigo das famílias brasileiras.

A história dessa raça não começou em luxuosas exposições de beleza, mas no barro e na poeira das trilhas coloniais. O Fila nasceu da necessidade dos tropeiros e bandeirantes de ter um parceiro multifuncional: um cão que pudesse pastorear o gado rebelde, proteger comitivas contra ataques de onças e ser um vigia incansável das grandes propriedades rurais.

Sua árvore genealógica é um mosaico de raças europeias que se adaptaram ao solo tropical. Acredita-se que ele carregue a estrutura robusta do Mastiff Inglês, o faro apurado do Bloodhound e a coragem inabalável do antigo Bulldog. Essa mistura resultou em um animal único, capaz de resistir a longas caminhadas sob o sol forte sem perder o vigor físico.

O nome “Fila” explica muito sobre sua essência técnica. Derivado do verbo “filar”, que significa segurar ou morder com firmeza, ele descreve a técnica do cão em conter animais maiores sem necessariamente feri-los com gravidade. Era a ferramenta de trabalho indispensável para uma economia que, nos séculos passados, girava totalmente em torno da pecuária e da terra.

Tradicionalmente, o Fila é famoso por uma característica que o diferencia de qualquer outro cão: a “ojeriza” a estranhos. O padrão clássico da raça descreve um animal que não aceita o toque de desconhecidos, mantendo uma distância vigilante. No entanto, o tempo passou e o Fila acompanhou a evolução da sociedade, tornando-se um animal mais equilibrado.

Hoje, observamos uma mudança fascinante: o temperamento do Fila Brasileiro tornou-se muito mais ameno. Graças ao trabalho de criadores focados em seleção genética moderna, o Fila de hoje, embora mantenha seu instinto de proteção, é um cão muito mais sociável, capaz de discernir com clareza entre uma ameaça real e um visitante convidado.

Essa “suavização” não significa perda de coragem, mas sim um aumento na inteligência emocional do animal. O Fila moderno é um cão mais adaptado à vida contemporânea, sendo um companheiro manejável para donos que buscam um guardião que saiba se comportar em ambientes diversos sem perder a sua essência protetora.

Dentro de casa, a doçura desse gigante é lendária. Ele é conhecido por ser extremamente paciente com crianças, permitindo brincadeiras que cães menores poderiam não tolerar. É o contraste perfeito: um guerreiro do lado de fora do portão e um gigante gentil, e por vezes preguiçoso, quando está deitado aos pés de seus donos na sala.

Para manter esse gigante saudável, no entanto, o tutor precisa estar atento à alimentação. O Fila nunca deve comer apenas uma vez ao dia em grandes quantidades. A recomendação é dividir a porção diária em duas ou três vezes para evitar a torção gástrica, uma condição grave e comum em cães de peito profundo que pode ser fatal.

Além da divisão das refeições, o repouso é sagrado. Nada de corridas ou brincadeiras brutas logo após o jantar. O cuidado com a dieta, preferencialmente rica em nutrientes que protejam as articulações como a condroitina, garante que o peso do cão não se torne um inimigo de sua coluna e de suas patas ao longo dos anos.

A pele solta, outra marca registrada, exige atenção especial. Embora seja uma “armadura” natural contra ataques, as dobras precisam ser monitoradas para evitar irritações. O mesmo vale para as pálpebras; devido ao peso da pele, o tutor deve sempre observar se os olhos do cão apresentam vermelhidão ou lacrimejamento excessivo.

No aspecto do desenvolvimento físico, o Fila cresce de forma explosiva. Por isso, o ambiente onde ele vive conta muito. Deve-se evitar que o filhote passe muito tempo em pisos escorregadios, como porcelanatos, que podem forçar as articulações ainda em formação. Grama ou pisos antiderrapantes são os melhores aliados do crescimento saudável.

A socialização é o segredo para que esse temperamento moderno e ameno floresça. Entre os 2 e 5 meses de idade, o filhote deve ser exposto de forma positiva a diferentes sons, texturas e pessoas. O objetivo não é torná-lo um “amigo de todos”, mas sim um cão confiante que não se assusta ou reage por medo ao desconhecido.

Uma técnica eficaz de socialização envolve levar o filhote a lugares neutros, onde ele não se sinta o dono do território. Passeios em parques ou ruas movimentadas ensinam ao Fila que o mundo exterior não é um campo de batalha, mas um lugar onde ele pode transitar com tranquilidade sob o comando de seu dono.

A relação entre o Fila e seu tutor deve ser baseada na liderança firme e no afeto. Ele é um cão que não responde bem à violência ou gritos, mas que floresce quando recebe orientações claras. Ele precisa sentir que o dono é um líder confiável, o que o deixa relaxado para não precisar tomar decisões por conta própria.

A fidelidade do Fila é tão profunda que deu origem ao ditado “fiel como um Fila”. Ele é um cão de um dono só, ou melhor, de uma família só. Sua conexão emocional com o núcleo familiar é intensa, e ele é capaz de perceber mudanças no humor dos donos, oferecendo sua presença silenciosa como conforto.

Esteticamente, o Fila encanta pelo seu “passo de camelo” (ou passo de saca). Ao contrário de outros cães, ele move as patas do mesmo lado ao mesmo tempo, da mesma forma que os felinos. Esse andar balançado é uma herança de resistência, permitindo que ele patrulhe grandes perímetros economizando energia, como se estivesse flutuando sobre o terreno.

Na década de 1940, o trabalho de pioneiros como Paulo Santos Cruz salvou a raça da descaracterização. Hoje, o Fila Brasileiro é reconhecido mundialmente e exportado para diversos países. Ele é a prova de que a rusticidade do Brasil Colônia pode conviver harmonicamente com a sensibilidade exigida por um cão de companhia atual.

Para quem deseja um Fila, o espaço é fundamental. Ele precisa de um quintal para exercer seu instinto natural de observação. O tédio é o maior inimigo da sua saúde mental; por isso, ter um propósito — seja guardar a casa ou acompanhar o dono em caminhadas — é o que mantém esse gigante feliz.

Em resumo, o Fila Brasileiro é uma obra de arte da história nacional. Ter um exemplar hoje é ter um pedaço da alma do Brasil no quintal: um protetor implacável que, no fim do dia, só quer um carinho na cabeça e a certeza de que sua família está segura. É a lealdade em sua forma mais imponente e gentil.

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Instagram: @leoobernar

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