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Aqueles que ousam

Filme proibido

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O primeiro filme proibido a gente nunca esquece.

No meu caso, não foi Deus criou a mulher, com Brigitte Bardot, lançado na França em 1956; este, visto bem depois, deve ter sido o segundo. O primeirão foi um filme inglês de guerra, proibido para menores de 14 anos.

Eu tinha 11 anos recém-completados. Morava em Niterói, na professor Miguel Couto, uma rua que hoje faz parte do badaladésimo Jardim Icaraí, com seus muitos bares e restaurantes. Na época, porém, pertencia ao pacato bairro de Santa Rosa. Foi no cinema Mandaro, uma sala pra lá de chinfrim, no coração de Santa Rosa, bem longe da praia de Icaraí, que a coisa aconteceu.

Andei uns sete-oito quarteirões até o cinema. Devia estar tremendo de emoção: ia encarar meu primeiro filme proibido. Comprei o ingresso e enfrentei o porteiro.

– Quantos anos você tem, filho?

– Quatorze, senhor – menti com um sorriso cândido.

Ele olhou-me, sério, e fuzilou:

– Em que ano você nasceu?

– Em 1946.

O homem deu um sorriso de zombaria, do babaquinha no início da adolescência, que mentira a idade, mas não pensara em mudar o ano do nascimento.

– Volte daqui a três anos, moleque – e me esqueceu.

Fiquei indignado. Não com ele, mas com a minha estupidez. E resolvi insistir.

Fui até a banca de jornal da esquina e comprei um gibi. Até hoje não sei por quê, só sei que foi assim. Talvez para ocupar as mãos e impedi-las de suplicar para não ser preso, quando fosse flagrado de novo (eu não era muito otimista). Depois passei as mãos pelos cabelos, despenteando-me, puxei a camisa para fora da calça e comprei novo ingresso.

O porteiro mal me olhou, não perguntou nada, e entrei no cinema. Avancei para a plateia, todo pimpão, quando um vendedor de guloseimas, que assistira ao entrevero anterior, sorriu para mim e comentou:

– Enganou o otário, né, garotão?

Não respondi, entrei rápido na sala e fiquei junto a uma pilastra. O filme já havia começado, mas eu mal olhava para a tela. Esperava, a todo momento, levar um safanão do adulto enganado ou, pior, ser preso pelos meganhas. Fiquei assim o filme inteiro, escondido atrás da pilastra, o coração na boca, sem entender pissirongas do enredo – só vi que era um filme de guerra, inglês, com um ator desconhecido para mim, chamado Dirk Bogarde.

Claro que não esperei o final do filme. Quando entrou no clima de apoteose final, com a derrota dos alemães no deserto, afastei-me da sala pé ante pé e em seguida passei zunindo pelo porteiro. Mais uma vez ficou provado que moleques de 11 anos correm pra dedéu. Cheguei a pensar em lançar uma provocaçãozinha inocente, tipo “Na corrida ninguém me ganha” – useira e vezeira nos bons e velhos tempos do Brasil dos anos 50, em que os policiais, os meganhas, corriam atrás dos infratores sem mandar bala –, mas desisti. Ia precisar de todo o meu fôlego para correr sete-oito quarteirões em tempo recorde.

Em tempo: graças ao Google, identifiquei o filme: Those who dare, com Dirk Bogarde, produção britânica lançada em 1954. Não consegui encontrar o título em português.

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