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Sarrafo mais alto

Fim da encruzilhada política pode vir como um coelho que sai da cartola

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Política todos nós fazemos até dormindo. Ao acordarmos, a consequência é que somos todos políticos. Entretanto, como fazer política é uma arte, poucos conseguem o diploma de conclusão do curso de homem público que preza pelos interesses da população. Ouço desde menino que o bom político não é aquele que vence nas urnas, mas sim o que trabalha para atender às necessidades de seu povo. O tempo passou e hoje, algumas boas décadas depois da meninice, ainda não se dissipou a certeza de que, de todas as coisas negativas na política, os políticos são a pior.

Eles nascem, crescem, são eleitos e morrem sem descobrir que é pelo caráter e não pelo intelecto que se ganha o mundo. Filosofias e sonhos à parte, a política tem tudo para ser mais honesta, compreensiva e social. Como tudo tem começo, meio e fim, o primeiro passo seria, antes de atingir o objetivo eleitoral, instruir os candidatos a se preocuparem mais com ideias e propostas e menos com agressões gratuitas a adversários, os quais, em uma única análise, não são inimigos. Desse modo, a avaliação crítica de cada um seria de responsabilidade exclusiva dos eleitores. Como a honestidade é uma obrigação, o pulo seguinte é o eleito se lembrar de Pompeia Sula, a mulher do imperador César, e se mostrar honesto em qualquer ocasião ou situação.

Feito isso, o fim natural é a reeleição ou o alcance de novos patamares políticos. Elevar o sarrafo impõe alguns contratempos, entre eles o de deixar de depender da política. Também exige decisões cabeludas e impensáveis. A principal delas é tornar pública a entrada do cidadão honesto pela porta da frente dos palácios e informar sobre a saída sorrateira do político pela porta dos fundos. Didaticamente, serenidade, parcimônia, bons projetos, ideias progressistas e muita sensibilidade para saber alcançar os anseios do povo são alguns dos ingredientes básicos para um cidadão ser um bom político, sobretudo um bom prefeito, governador e presidente da República.

Para chegar a um desses três títulos majoritários, normalmente seus postulantes já foram senadores, deputados e vereadores. As diferenças entre eles são os obstáculos e as cascas de banana jogadas estratégica e deliberadamente pelos opositores. Mudar de parlamentar para o andar de cima, o de mandatário, significa participar obrigatoriamente de um Big Brother diário. Ao contrário dos parlamentos, esses cargos exigem competência comprovada e não permitem arroubos retóricos, tampouco manifestações de força, de deboches ou de superioridade. Todos que agiram dessa forma ficaram pelo caminho. Alguns estão reclusos em casa ou recolhidos a diminutivos de penitenciárias. Papudinha, por exemplo.

Os que conseguiram concluir a caminhada perderam o retorno e não voltaram. Excetuando o dever de abstinência no ímpeto da rapinagem, para deputados, senadores e vereadores as exigências são bem menores, considerando que o palco que eles ocupam é um teatrinho do tipo debilóides. Enquanto a palavra ou uma frase mal colocada de um prefeito, governador ou presidente tem efeito devastador, podendo gerar impeachments, os parlamentares (mesmo aqueles sem argumento algum) têm liberdade para abusar de frases de efeito, as quais, sem qualquer filtro, geram recortes para suas redes sociais. Ou seja, não há hipótese de a postura teatral de uns ser repetida por outros. Às vezes, o vale a pena ver de novo é suicídio. Por enquanto, o futuro político do Brasil é uma encruzilhada.

A eleição de outubro pode ser a melhor ocasião para elevar o sarrafo da política e tirar o país dessa triste caminhada. Cada vez mais raros nas três esferas eleitorais (municipal, estadual e federal), o político honesto quando chega ao poder fica limitado a três opções: o aeroporto ou a rodoviária da cidade, a adesão à corrupção ou a perseguição implacável dos desonestos. Parafraseando o pensador Donizete de Castilho, o político honesto deve se comportar como os criadores de porcos: não ter de entrar no chiqueiro e não se deitar com os porcos para não se sujar. Tarefa difícil, mas não impossível para aqueles que consideram a honestidade a proeza mais memorável de todas as atitudes. Vale a pena escolher certo em outubro próximo. Se preferirem, reeleger também é um bom negócio.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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