Fé na Tormenta
Foi ali que experimentamos fatos extraordinários
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Todos que me conhecem sabem que fui criado em Jacarepaguá, na capital fluminense, onde transcorreu a maior parte dos meus vinte e oito anos. Hoje resido nas Vargens, bairro vizinho que aprendi a apreciar com a serenidade de quem amadurece. Ainda assim, por um desses caprichos súbitos do destino, vivi durante seis meses, entre 2022 e 2023, em Maricá, na casa de minha família, território de raízes profundas, onde ainda se concentra a maioria dos meus parentes.
Foi ali que, numa tarde de janeiro de 2023, experimentamos algo que permanece gravado na memória com a nitidez dos acontecimentos extraordinários.
Minha irmã havia saído para treinar e minha mãe tinha ido para o trabalho. Em casa estávamos apenas eu, meu pai e Julliane, então minha namorada, hoje minha companheira de vida. O vento começou a soprar com uma violência incomum, uivando pelos cantos da casa como se quisesse anunciar algo. O céu, que momentos antes ainda respirava luz, escureceu abruptamente, mergulhando tudo em uma penumbra pesada. A chuva veio logo em seguida, não como visita, mas como invasão, de maneira densa, crescente e obstinada. Até que um clarão rasgou o firmamento e, num único instante, toda a cidade se apagou. O caos instalou-se em silêncio.
Da área externa, até então ornada por gramíneas, roseiras e pequenas flores, corria agora um verdadeiro curso d’água, formado por aquilo que desabava do céu sem trégua. Preocupados, observávamos de dentro enquanto procurávamos velas. Meu pai, com a prontidão de quem assume o comando sem alarde, saiu em busca delas. Julliane segurava nossos cães, Miúda e Marrom, tentando acalmá-las diante do estrondo contínuo dos trovões, que reverberavam como ameaças antigas. Os povos nórdicos talvez dissessem tratar-se de um deus brandindo seu martelo.
Mesmo assim, ela insistia em seguir com o que iniciara antes da queda de energia, preparando panquecas à luz de uma vela trêmula. Gesto doméstico que contrastava com a fúria do mundo lá fora. Eu a auxiliava quando um ruído diferente nos chamou. Não era trovão nem vento. Era mais como algo entre ruptura e arrasto. Corri até a entrada.
O cenário era quase inverossímil. Telhas voavam de casas vizinhas. Galhos e folhas cruzavam o ar como projéteis erráticos. Nosso portão de madeira, escancarado, resistia apenas por instantes antes de ceder, sendo empurrado violentamente para o lado oposto ao seu eixo. Eu e meu pai compreendemos, ao mesmo tempo, sem que fosse preciso dizer: se o portão se perdesse, a casa ficaria exposta. Concentramos toda a atenção nele.
A estrutura da entrada sempre fora imperfeita, um plano que permitia o acúmulo de água entre duas elevações da calçada. Naquela tempestade, a falha revelou sua gravidade. Formou-se uma poça espessa que ocultava justamente o pequeno orifício onde a tranca inferior deveria se fixar. O vento, aliado à água, desalojara o portão. E o buraco, além de invisível sob a enxurrada, era raso demais para suportar a pressão brutal das rajadas. Era preciso aprofundá-lo. Era preciso fazê-lo ali, no meio da tormenta.
O portão, grande e pesado, exigia duas pessoas. Uma para segurá-lo firme, outra para trabalhar. Meu pai pegou as ferramentas. Eu me coloquei diante dele. Julliane não tinha forças pra segurar a porta e retornou para a casa. O frio cortava a pele, carregando consigo partículas de água, folhas e poeira. Mal víamos o que fazíamos. Sentíamos apenas. Mais tarde, se falaria de um fenômeno climático intenso que passara pela região naquele dia, porém naquele momento não era notícia, e sim experiência.
Segurei o portão com ambos os braços, travando-o contra a força invisível que tentava arrancá-lo de mim. Cada rajada parecia disputar espaço com minha própria vontade. Trovões explodiam próximos. Raios riscavam o céu. Julliane gritava meu nome de dentro da casa, ainda tentando manter os cães tranquilos e, de algum modo, preservar a normalidade impossível daquele instante.
Eu fazia uma força que não sabia possuir. Então, quase sem perceber, clamei: “Deus, me dá forças. Se eu soltar, ele vai voar.”
Meu pai tentava uma vez, outra, mais outra, buscando firmar a tranca no novo encaixe que abria no cimento encharcado. O vento nos empurrava. A água subia pelos pés. O tempo parecia suspenso entre uma tentativa e outra.
E, por um breve instante, que não se explicou, a fúria diminuiu. Não cessou, mas cedeu o suficiente. O caos recuou um passo. Foi o tempo necessário para que a tranca finalmente encontrasse seu lugar. O portão se firmou.
Soltei-o devagar, ainda sem acreditar. Olhamos um para o outro, eu e meu pai, e rimos. Um riso espontâneo, quase infantil, nascido do alívio. Estávamos encharcados. Roupas coladas ao corpo, cabelo escorrendo, bolsos pesados de água. Mas estávamos ali.
Voltamos para dentro. A casa permanecera intacta. A vela ainda ardia. E o cheiro das panquecas, surpreendentemente, preenchia o ambiente.
Dias atrás, enquanto tomávamos café, nós três relembramos aquele episódio. Falamos pouco. Não era necessário muito. Há experiências que dispensam explicações, pois se tornam linguagem própria.
Foi um momento de permanecer firmes, literal e simbolicamente, no coração da tempestade. No meio do tufão. Haja força!
E há memórias que não passam nem se diluem. Apenas permanecem, como marcas silenciosas de que, às vezes, resistir já é, por si só, um ato de fé.
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Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.