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Uma crônica

Fome e poesia, o cotidiano no Sertão do século passado

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Autor/Imagem:
Acssa Maria - Foto de Arquivo

No sertão de 1950, a vida não era fácil — mas era inteira. O sol nascia antes do galo cantar e já encontrava o homem de chapéu de couro no terreiro, olhando o céu como quem lê um livro sagrado. Cada nuvem era esperança. Cada vento diferente, promessa de chuva.

A seca não era visita, era moradora antiga. Rachava o chão, estalava os lábios e fazia o silêncio pesar mais que o calor do meio-dia. A fome rondava as casas de taipa, feitas de barro e coragem. No fogão a lenha, muitas vezes só havia farinha de mandioca, um pouco de feijão guardado com zelo e, quando a sorte ajudava, carne de sol dividida em pedaços miúdos para durar a semana inteira.

Mas, no meio da escassez, havia poesia. Poesia no aboio do vaqueiro cortando a caatinga. Poesia na cantiga da mãe ninando o menino em rede armada na sala pequena. Poesia na fé que nunca secava, mesmo quando o açude virava lembrança.

Os anos 1950 no sertão nordestino foram marcados por grandes estiagens e também por migrações. Muitos sertanejos viraram retirantes, seguindo para capitais como Recife e Fortaleza, ou até para o distante Sudeste, em busca de trabalho e pão. Partiam com trouxas na cabeça e esperança no peito. Deixavam para trás o mandacaru, o juazeiro e a saudade plantada no quintal.

A educação era pouca, mas o saber era vasto. Sabia-se ler o tempo, prever a chuva pelo comportamento dos bichos, reconhecer o canto de cada ave. A escola da vida ensinava cedo: plantar quando dava, guardar quando podia, dividir sempre.

As festas eram simples, mas cheias de alma. O São João iluminava a noite seca com fogueiras e forró pé de serra. No terreiro batido, o povo dançava como quem desafia a própria dificuldade. Porque no sertão, sorrir era também resistência.

Entre a fome e a fé, nascia a poesia do cotidiano. Uma poesia sem papel, escrita na memória do povo. Cada cicatriz contava história; cada história virava verso.

O sertão de 1950 era duro, sim. Mas era também forte. E no coração daquele povo, mesmo quando faltava comida na mesa, nunca faltou dignidade.

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