Pregação inútil
Fora da ética e longe da moral, nada mais resta além da esculhambação
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Ramo da filosofia que, com base em valores morais, investiga os princípios orientadores da raça humana, a ética virou um “produto” bem perto da extinção no Brasil e no mundo. Fundamental para a harmonia social, a ética serve para distinguir o certo do errado, o bem do mal e o justo do injusto. Devendo ser cultivada desde a mais tenra infância, é ela que, pelo menos em tese, ajuda a combater a corrupção, a injustiça e o desrespeito à dignidade humana. Filosoficamente, ter ética significa impedir que a inveja, o ódio e o rancor ajam livremente.
Conceitualmente, porém, ela é muito mais profunda. Um homem ético faz o que é correto e não o que é mais fácil. Na atual política brasileira, quem age corretamente não precisa escolher um lado, basta seguir reto. No Brasil de hoje, infelizmente a ausência dela alcançou todos os níveis de poder, respingando naqueles que, além de topar tudo por dinheiro, aceitam qualquer tipo de proposta para se tornar ainda mais poderoso. Sem a necessidade de entrar no mérito, o caso do Banco Master mostrou que precisamos de mais atitude e menos blá-blá-blá de políticos, magistrados
De acordo com a Constituição de 1988, a lei tem de ser cumprida por todos, prioritariamente por aqueles que são pagos para aplicá-la. Como prega a história da vida, esses têm a obrigação de serem exemplos. Por analogia, quem não se lembra de Pompéia, a mulher de César, cobrada pela sociedade da época a, além de ser honesta, parecer honesta. Será que é isso que está faltando às nossas autoridades? Provavelmente, sim. Seja membro desse ou daquele poder, virou norma ouvir nossos homens públicos pregando moral, respeito, ética e justiça. Vã pregação.
Pregam, mas, aparentemente, poucos conhecem os verdadeiros significados desses valores. Se conhecessem apoiariam integralmente a proposta do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de adoção de um Código de Conduta não só para a Corte Suprema, mas, principalmente, para o Legislativo e Executivo federal, estadual e municipal. Vivemos uma época repleta de estética e vazia de ética. A crise é sem precedentes. E, lamentavelmente, isso vem ocorrendo com os dois lados da moeda envolvida no teratológico jogo do poder.
Não precisa ser escolado ou ter doutorado em sociologia, antropologia ou similares para saber que não há hipótese de uma nação ser absolutamente ética se um ou os três poderes padecem do mal da corrupção. Com a mesma intensidade, não existe poder ético em uma nação corrupta. Ou seja, com peso idêntico, nossos deveres e direitos precisam ser, respectivamente, regulados pela ética e pela moral. Em síntese, sem ética não há negociação. Fora disso, nos resta a esculhambação.
Como aprendemos na escola, a política é para os políticos, o céu para os aviões, a arte para os artistas, a Justiça para os magistrados e a poesia para os poetas, mas a ética é para todos. Pelo menos deveria ser. Por enquanto, pior do que a ausência dela, só o escárnio e o cinismo de personagens que diariamente afrontam a inteligência alheia. O que falta para unir o povo às autoridades eleitas e indicadas é o compromisso com as instituições. Como disse o ministro Edson Fachin, dirigindo aos colegas do STF, “Se os tempos exigirem mais de nós, sejamos maiores que os desafios”.
Que o recado seja estendido ao presidente da República, aos ministros de Estado, governadores, prefeitos, deputados, senadores, vereadores e, sobretudo, aos eleitores. Depois de eleitos ou indicados, os chamados homens públicos são diplomados. Torço para que, um dia, todos percebam que a moral e a ética são os “diplomas” mais importantes que um ser humano pode receber.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978