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Brasília, 1961

Fortunato, mas nem tanto

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Degustou os restos mortais da ceia do Ano Novo. Parece algo macabro ou, no mínimo, triste, ainda mais por se tratar de Adilson Fortunato, cuja fortuna era tanta, que poderia entrar facilmente como um dos homens mais abastados do seu tempo nas cercanias da então pouco habitada capital do país nos idos de 1961. Verdadeiro nababo rodeado de miseráveis.

Mastigou duas ou três vezes o naco daquela coxa e, carrancudo, o cuspiu.

— Que porcaria! Quem temperou esse peru parece que desconhece a existência de sal. Maria! Maria!!!

Não tardou, lá estava a pobre mulher, uma das tantas empregadas do casarão, praticamente aos pés do patrão.

— Pois não, senhor Fortunato.

— Você sabe o que é sal?

— Sal?

— É! Sal! Não sabe o que é sal?

— Sei sim, senhor.

— Então, da próxima vez, vê se usa sal no peru!

— Eu quis colocar mais sal, patrão, mas a dona Laura disse que não faz bem pro senhor.

— Arre! Pois deixe estar! Deixe estar, que me entendo com a minha mulher. Agora vá, vá, que não estou com tempo pra perder com bagatelas.

Mal a funcionária deu as costas, Fortunato pegou um charuto dentro da caixa na estante, retirou o isqueiro do bolso. Acendeu, tragou, a fumaça tomou conta do ambiente.

— Já começou, Adilson?

— Estou ansioso, Laura.

— E eu preciso morrer sufocada por causa da sua ansiedade?

— Vou pedir pra abrirem as janelas.

— Hum! E eu sou aleijada por acaso, Adilson?

Dona Laura escancarou cortinas e janelas, pegou seu leque e tentou agilizar a troca da fumaça por ar respirável. Fortunato, que não era capaz contra a esposa, foi fumar no alpendre. Olhou ao redor e ralhou com o jardineiro. Pronto! Masculinidade recuperada, ao menos por enquanto, sentou-se na cadeira de balanço e produziu a fumaça que desejou até ele próprio não suportar o sabor da liberdade longe da companheira de quase três décadas.

Encontrou a mulher na cozinha, onde ela dava orientações sobre o almoço. Fortunato a observou por um momento. Pouca coisa mais baixa do que ele, cinco anos mais moça, cintura de quem já havia parido algumas vezes, o que lhe conferia certa altivez. Os cabelos grisalhos por opção eram sinal de gente confiante, como se não necessitasse de aprovação. Era justamente esse destemor que atraiu o então jovem Adilson, que buscava algo do qual era desprovido.

— Pode deixar, patroa, que o almoço vai sair ao seu gosto.

— Obrigada, Maria.

Laura percebeu o marido na recostado na porta da cozinha.

— Adilson, você deu pra me espionar agora?

— Não. É que…

— Vá lá pra sala antes que eu te ponha pra descascar algumas cebolas.

O esposo da dona da casa nem titubeou. Virou-se e foi se sentar na poltrona. Pegou o jornal e fingiu folheá-lo com interesse. Nem as fotografias apeteciam seus olhos cansados de tantas inverdades bem escritas.

O telefone tocou. Geralda, que espanava a poeira dos móveis, atendeu. Era Luísa, a caçula do velho casal.

— Oi, filha! Quando você vem nos visitar? Sua mãe não fala de outra coisa.

— Ah, pai, estou toda enrolada com as provas na faculdade.

— Tá bem, filha. Vou passar para a sua mãe, que está aqui ao lado.

— Oi, Luísa! Como vai a vida aí nesse Rio de Janeiro?

— Tá tudo bem, mãe. Mas preciso saber se a senhora fala com o pai uma coisa.

— Hum! Já sei. Mas pode ficar tranquila, que hoje à tarde ele vai ao banco.

— Ah, mamãezinha de Deus, muito obrigada!

O almoço foi servido exatamente ao meio-dia, mas poderia ter sido mais tarde. Não estavam com fome, comeram por hábito. E assim levavam a vida. Mudanças assustam.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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