Curta nossa página


Poder

Foucault explica por que todo mundo quer controlar a vida dos outros

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma coisa curiosa sobre o poder: quase todo mundo diz que não gosta dele, desde que não esteja exercendo.

Queremos liberdade.

Mas também queremos saber onde o outro está.

Queremos privacidade.

Mas adoramos uma informação privilegiada.

Defendemos autonomia.

Mas temos uma opinião muito precisa sobre como o vizinho deveria educar os filhos.

Foucault provavelmente acharia tudo isso bastante interessante.

Porque o poder não está apenas no Estado, na polícia ou nas grandes instituições.

Ele circula.

Passa pelas relações.

Pelos discursos.

Pelas normas.

Pelos pequenos gestos.

Pelo “você deveria”.

Pelo “na sua idade”.

Pelo “eu, no seu lugar”.

Pelo “mas você não acha melhor…?”

Essa última frase, aliás, deveria vir acompanhada de trilha sonora de suspense.

Porque raramente vem sozinha.

Quase sempre traz uma pequena tentativa de administração da vida alheia.

A sociedade possui uma quantidade impressionante de especialistas em como devemos viver.

Como casar.

Quando ter filhos.

Quanto trabalhar.

Como vestir.

O que comer.

Quanto pesar.

Onde morar.

O que publicar.

Quando descansar.

Quando superar.

E, se possível, tudo isso antes dos trinta e cinco.

É uma espécie de currículo existencial.

Quem foge da sequência prevista precisa apresentar justificativa.

Mas talvez a forma mais sofisticada de liberdade seja justamente compreender essas expectativas sem necessariamente obedecê-las.

Não significa viver sem regras.

Significa reconhecer que muitas regras que tratamos como naturais são históricas.

Foram produzidas.

Repetidas.

Normalizadas.

E, justamente por isso, podem ser questionadas.

Talvez o primeiro passo para cuidar da própria vida seja perceber quantas pessoas estão tentando administrá-la.

E quantas dessas pessoas, infelizmente, somos nós mesmos.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.