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(Des)protegido

Fragilizado, Nordeste tenta vencer adversidades

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Autor/Imagem:
Acssa Maria - Foto Divulgação

O Nordeste brasileiro é, ao mesmo tempo, território de potência e de fragilidade. Região de culturas vibrantes, economias em transformação e identidades profundamente enraizadas, também carrega marcas históricas de desigualdade que, em muitos contextos, ainda expõem sua população a situações de desproteção social, econômica e ambiental. Falar de um Nordeste “(des)protegido” é reconhecer essa ambivalência: avanços reais convivendo com vulnerabilidades persistentes.

Nas últimas décadas, políticas de transferência de renda, ampliação do acesso à educação e investimentos em infraestrutura básica alteraram significativamente o cotidiano de milhões de nordestinos. Programas sociais reduziram a fome extrema, elevaram a frequência escolar e movimentaram economias locais, especialmente em pequenos municípios.

Entretanto, a dependência dessas políticas também revela uma fragilidade estrutural. Em muitas cidades, a ausência de um tecido produtivo sólido faz com que qualquer redução de investimentos sociais tenha impacto imediato no comércio, no emprego e na segurança alimentar. O Nordeste avança, mas ainda caminha sobre uma base sensível a oscilações políticas e econômicas.

A desproteção não é homogênea. Ela se expressa de formas distintas na zona rural, nas periferias urbanas e nas áreas semiáridas. No sertão, a irregularidade das chuvas e os efeitos das mudanças climáticas continuam impondo desafios à agricultura familiar, apesar de tecnologias de convivência com o semiárido terem reduzido parte dos riscos.

Nas grandes cidades, o problema assume outra face: crescimento urbano acelerado, déficit habitacional, informalidade no trabalho e violência concentrada em áreas periféricas. Jovens, mulheres e populações negras são os mais expostos, revelando como desigualdades sociais e raciais se sobrepõem.

Eventos climáticos extremos — secas prolongadas, enchentes repentinas e aumento das temperaturas — ampliam o sentimento de desproteção. Embora o Nordeste tenha acumulado experiências exitosas de adaptação, como cisternas, energias renováveis e agricultura resiliente, essas iniciativas ainda não alcançam todos que precisam.

A falta de planejamento urbano e ambiental torna comunidades inteiras vulneráveis a desastres previsíveis. Quando a proteção falha, o custo humano recai sobre quem já vive no limite.

Apesar das fragilidades, o Nordeste não é sinônimo de passividade. Redes comunitárias, associações, cooperativas e iniciativas culturais funcionam como verdadeiros sistemas de proteção informal. A economia criativa, o turismo de base comunitária, a expansão das energias eólica e solar e o fortalecimento das universidades públicas mostram uma região que cria soluções próprias.

A proteção, muitas vezes, nasce da solidariedade cotidiana: vizinhos que dividem água, renda, comida e esperança. Essa capacidade de resistência é um patrimônio invisível, mas fundamental.

O retrato do Nordeste (des)protegido é, sobretudo, um retrato em movimento. A região não pede apenas assistência, mas continuidade, planejamento e respeito à sua diversidade interna. Proteger o Nordeste significa fortalecer políticas públicas, reduzir desigualdades históricas e reconhecer que investir na região é investir no desenvolvimento do país como um todo.

Entre avanços e ausências, o Nordeste segue existindo, criando e resistindo — exigindo não compaixão, mas compromisso.

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