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Made in Pernambuco

Frevo, de ‘frever, ferver’, mexe com gente daqui e de fora há mais de um século

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Autor/Imagem:
Clóvis Miranda, Especial para Notibras - Foto de Arquivo

O frevo nasceu da rua antes de virar patrimônio. Surgiu do empurra-empurra das multidões, do brilho metálico das bandas militares, do passo ligeiro de quem precisava abrir caminho em meio ao fervor do Carnaval. Talvez por isso carregue no nome a própria temperatura: frever, ferver, frevo — um verbo em ebulição que virou música, dança e identidade.

Celebrado em 9 de fevereiro, o Dia do Frevo marca a força dessa expressão cultural que ganhou o mundo sem nunca abandonar Pernambuco. A data remete à primeira vez em que a palavra apareceu oficialmente na imprensa, no início do século XX, como uma tentativa de descrever aquele som apressado e aquela coreografia improvisada que incendiavam o Recife.

No começo, a dança era quase um duelo coreográfico. Capoeiristas acompanhavam as bandas, exibindo agilidade, saltos, esquivas. A sombrinha — hoje colorida e leve — nasceu como instrumento de defesa e equilíbrio. Com o tempo, a luta virou balé popular. Os golpes se transformaram em passos, catalogados, ensaiados, transmitidos de geração em geração, mas sempre abertos à invenção de quem chega.

O frevo se divide e se multiplica. Há o frevo de rua, explosão instrumental que pede suor e resistência; o frevo-canção, que convida a cantar junto; e o frevo de bloco, mais lírico, embalado por corais e cordas, capaz de fazer o folião dançar com os olhos marejados. Em comum, todos carregam o sentimento de pertencimento, a certeza de que ali pulsa uma memória coletiva.

Não é por acaso que, em 2012, a UNESCO reconheceu o frevo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O título formalizou o que o povo já sabia: não se trata apenas de um ritmo, mas de uma maneira de existir. O frevo é resistência, mistura, reinvenção permanente.

Nas ladeiras de Olinda, no Marco Zero do Recife, nas agremiações que atravessam décadas, o que se vê é um pacto silencioso entre passado e futuro. Mestres ensinam crianças a dobrar o corpo como se o chão queimasse. Jovens acrescentam movimentos novos. Turistas tentam acompanhar, ofegantes. E a música segue, desafiando qualquer cansaço.

Comemorar o Dia do Frevo é celebrar essa chama que não se apaga. É reconhecer o trabalho dos passistas, dos maestros, dos artesãos que fabricam sombrinhas, dos compositores que criaram hinos eternos. É agradecer à rua por continuar sendo o grande palco onde Pernambuco dança sua própria história.

Porque, enquanto houver Carnaval, haverá frevo. E enquanto houver frevo, o coração pernambucano continuará em estado de fervura.

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