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Corrida ao Planalto

Funil engasga Lula e abre espaço para Flávio no primeiro turno

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Imagens

À primeira vista, os números das pesquisas Genial/Quaest e AtlasIntel divulgadas nesta semana parecem reafirmar o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em todos os cenários testados, Lula aparece à frente. Mas uma leitura mais atenta dos dados, e sobretudo, das tendências, revela um quadro menos confortável para o Palácio do Planalto: o presidente empacou num patamar da casa dos 48%, insuficiente para liquidar a fatura no primeiro turno.

É nesse espaço estreito, entre a liderança consolidada e a impossibilidade matemática da vitória imediata, que surge o chamado funil eleitoral. E, segundo analistas políticos e estrategistas de campanha, é justamente aí que o projeto de um “Lula 4” começa a engasgar.

Enquanto o petista parece encontrar um teto difícil de romper, o senador Flávio Bolsonaro (PL) avança com velocidade desde que teve seu nome confirmado como herdeiro do espólio bolsonarista. Na pesquisa Genial/Quaest, Flávio aparece com 35% das intenções de voto, contra 48,8% de Lula. Em dezembro, o senador marcava 29,3%. O salto de quase seis pontos percentuais em poucas semanas acendeu o sinal verde no campo conservador.

O dado central, porém, não está apenas na distância entre os dois, mas na dinâmica. Vê-se que Lula cresce pouco ou nada; Flávio cresce rápido. Para aliados do senador, isso indica que o funil do petista está estreito demais para permitir a passagem no primeiro turno, enquanto o de Flávio, ainda largo, comporta a convergência da direita e do Centrão.

Os cenários alternativos ajudam a ilustrar o ponto. Sem Flávio Bolsonaro na disputa, Lula teria 48,5%, contra 28,4% de Tarcísio de Freitas. Em ambos os casos, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), surge em terceiro, com cerca de 5%. Ou seja, a soma do campo não petista é robusta, mas depende de um polo claro de aglutinação.

É exatamente essa a missão atribuída a Flávio Bolsonaro. Ele soldar a direita, reduzir a dispersão e transformar rejeição ao PT em voto útil. Não por acaso, embora Lula ainda lidere, ambos aparecem com índices elevados de rejeição, com 49,7% para o presidente e 47,4% para o senador. Trata-se de um indicativo de polarização dura e de baixa margem para crescimento espontâneo.

É nesse contexto que entram as ressalvas levantadas pelos marqueteiros de Flávio Bolsonaro em relação à pesquisa Genial/Quaest. Segundo eles, não se trata de fraude, mas de viés de desenho do questionário, algo amplamente discutido na literatura de survey research.

A principal crítica diz respeito à ordem e à arquitetura cognitiva das perguntas. O questionário, afirmam, inicia com um bloco extenso de avaliação do governo Lula — aprovação, comparação com mandatos anteriores, percepção de notícias positivas e indicadores econômicos — antes de chegar à intenção de voto. Esse encadeamento produziria um priming positivo pró-incumbente, contaminando as respostas eleitorais subsequentes.

Outro ponto sensível é o uso de linguagem valorativa assimétrica. Perguntas como “Lula merece continuar mais quatro anos como presidente?” pressupõem mérito e ativam julgamento moral positivo. Para os assessores do PL, a formulação correta deveria ser neutra: “Você acha que Lula deveria ou não ser reeleito?”. A palavra “merece”, argumentam, funciona como gatilho normativo.

A análise dos bolsonaristas também aponta uma assimetria clara de enquadramento entre Lula e o campo Bolsonaro. Enquanto o presidente é associado a estabilidade, continuidade e normalidade institucional, o adversário aparece vinculado a erro, medo, conflito e dúvida. Perguntas como “O que te dá mais medo hoje: Lula continuar ou a família Bolsonaro voltar?” são citadas como exemplo de viés emocional explícito, que não mede preferência, mas aversão induzida.

Há ainda críticas ao viés pró-status quo nas perguntas econômicas, formuladas de modo gradualista e sem contrapontos históricos ou responsabilização alternativa, reforçando a vantagem estatística de quem governa. Soma-se a isso a saturação do nome de Lula ao longo do questionário, fenômeno conhecido como mere exposure effect, que aumenta saliência cognitiva.

Mesmo com todas as ressalvas, principalmente as que institutos costumam rebater com argumentos técnicos, o fato político permanece com Lula liderando, mas sem disparar. E, em eleições presidenciais brasileiras, quando o líder não rompe a barreira simbólica dos 50% válidos, o segundo turno deixa de ser hipótese e passa a ser cenário plausível.

Se o funil eleitoral continuar estreito para o presidente e largo para o senador, a eleição de outubro tende a se transformar menos numa consagração antecipada e mais numa disputa prolongada. As eleições, ao que tudo indica, seguem abertas. E o primeiro turno, consequentemente, pode não ser o capítulo final dessa história.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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