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Praga certeira

Futebol e política se misturam na torcida em defesa da própria pátria

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Como patriota de quatro costados, torci até a última gota pela Seleção Brasileira. Os canarinhos caíram. Sul-americano e sem a bobagem de que brasileiro só torce pelo Brasil, torci pelo Uruguai, pelo Equador e pela Colômbia. Os três caíram. Neto de português, torci por Portugal e por Cabo Verde. Ambos caíram. Como todos temos os dois pés na África, me engajei na torcida da Costa do Marfim, Senegal, Gana, África do Sul, Egito, Marrocos, Argélia, Tunísia e República Democrática do Congo. Todos ficaram pelo caminho.

Por fim, torci pela Noruega e pela Suíça nas quartas-de-final. No fim de semana, pela ordem, as duas seleções caíram diante da Inglaterra e da Argentina. Sinceramente, ainda não tenho opinião formada sobre para quem torcer na finalíssima. Na verdade, tenho receio de declarar minha simpatia por uma das quatro seleções semifinalistas e vê-la, como todas as demais, caindo fora da Copa do Mundo. Por isso, decidi usar a garantia constitucional estabelecida no art. 5º. da Carta Magna e permanecer calado.

Meu silêncio, no entanto, é restrito ao futebol. Nunca pensei que pudesse ter a “boca santa”, isto é, com dom ou a capacidade de fazer previsões, promessas ou até pragas que se realizam. Como sempre ouvi dizer que a palavra “tem poder” e como, voluntária ou involuntariamente, derrubei todas as seleções pelas quais torci, duvido que alguém acerte por quem torcerei, em outubro, nas eleições presidenciais do Brasil e, em novembro, nas eleições e meio de mandato dos Estados Unidos.

Acertou quem imaginou aqueles dois seres cujas iniciais representam, respectivamente, as palavras falso, fugaz fariseu e demoníaco, dissimulado, debochado e difuso. Apesar de violentar minha consciência, é com eles que eu vou, pois, considerando todos os meus acertos, estou certo de que assistirei de camarote à vitória daquele pelo qual simbolicamente torcerei contra. Não adianta eu disfarçar, pois quem me conhece sabe que jamais torceria pela queda de quem torce pelo Brasil.

No futebol e, principalmente, na política, os que viram a cara para a pátria já perderam a significância de viver. Embora descaradamente se utilizem do substantivo patriota como adjetivo próprio, os autodenominados mais brasileiros do que os verdadeiros brasileiros rezam, oram, batem tambor e fazem pacto com o demo para derrubar quem os derrubou. Como nas eleições de 2022, estão fadados ao fracasso.

Os contrários, antagônicos ou divergentes verão o governo e o país dando certo do mesmo jeito, porque maior do que a inveja e o ódio é o propósito de Deus em relação ao povo brasileiro. Tudo ficou mais claro quando soube que o argentino Javier Milei virá ao Brasil para ajudar Flávio Milei Bolsonaro na campanha à Presidência da República. Como sou livre para fazer minhas escolhas vou torcer por 01. Preciso repetir o motivo?

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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