O LADO B DA LITERATURA
Geir Campos, o cara, a coroa e o cotidiano
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Fraterno, doce, gentil, amigo de seus amigos… Essas são algumas referências que contemporâneos faziam de Geir Campos, poeta retratado hoje no Lado B da Literatura.
Nascido em São José do Calçado, no Espírito Santo, em 1924, Geir cedo foi puxado para o eixo Rio e Niterói, onde sua vida se dividiria entre a disciplina do cotidiano e o desassossego da literatura. Estudou no Colégio Pedro II, formou-se na Escola de Marinha e tripulou navios do Lloyd Brasileiro durante a Segunda Guerra, carregando no corpo a rotina do mar e na memória a lição de que toda travessia cobra seu preço. Foi também professor, jornalista e homem de rádio, como se precisasse de muitas vozes para dar conta da própria.
O rótulo mais comum, e verdadeiro, é o de representante forte da Geração de 45, aquela que apostou no rigor formal quando o país parecia preferir o improviso. Mas o lado B de Geir não está apenas na forma. Está no modo de viver a literatura como ofício, quase como serviço público, com as mãos sujas de tinta e o coração atento à respiração do tempo. Ele não ficou só no pedestal do “poeta”. Editou, traduziu, organizou, ensinou, promoveu autores, abriu espaços. Fundou com Thiago de Mello as Edições Hipocampo, numa aventura quase doméstica de edição artesanal, tiragens pequenas, livros montados com esforço de família, como quem fabrica, na cozinha, um alimento que a cidade já não sabe preparar.
Esse compromisso com a circulação viva da palavra também se fez voz. Por mais de vinte anos, Geir apresentou na Rádio MEC o programa Poesia Viva, e é difícil não imaginar a cena, a poesia deixando o papel para habitar o ar, atravessando aparelhos, alcançando alguém que não sabia que precisava de um poema naquele dia. E, num gesto que hoje parece profético, ele também gravou seus poemas, recitados por ele mesmo, no selo Festa, casa fonográfica que apostou na literatura falada como patrimônio sonoro. Há registro de um lançamento em vinil no catálogo do Festa dedicado a Geir Campos.
Em meados dos anos 1950, ele trabalhava com Augusto Frederico Schmidt, como executivo de uma das empresas do gordinho sinistro, função que outro famoso escritor, Lucio Cardoso, autor, dentre outros, de Luz do Subsolo, também exercia. O detalhe é mais do que fofoca de época: coloca Geir dentro de uma engrenagem concreta, de escritório e expediente, em contraste com a imagem romântica do escritor etéreo. Schmidt, por sua vez, foi também um empreendedor de grande porte e fundador da seguradora Metrópole Seguros, Supermercados Disco, Companhia Distribuidora de Materiais de Construção, Indústria Química ORQUIMA, dentre outras iniciativas.
No plano estritamente literário, Geir tinha uma relação de respeito e liberdade com as formas. Ele publicou uma Coroa de sonetos, e isso, por si só, já diz muito. Coroa é construção de paciência e ambição: um colar de sonetos encadeados, em que cada peça segura a anterior e prepara a próxima, como se o poema fosse também arquitetura. A própria bibliografia biográfica o aponta com esse título entre os livros de sua primeira fase.
Geir escreveu a letra do Hino Oficial de Brasília, com música de Neusa França. Ele ajudou a dar palavra a uma cidade que nasceu planejada, mas precisava de canto para virar destino.
Também foi professor universitário na ECO/UFRJ, pesquisador de tradução (mestrado e doutorado em comunicação, com trabalhos dedicados ao ruído, ao ato criador, ao teatro) e traduziu para nosso idioma autores como Rilke, Brecht, Goethe, Shakespeare, Sófocles, Whitman e Daniel Defoe.
Nosso retratado morreu em 8 de maio de 1999, em Niterói, Rio de Janeiro.
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Cassiano Condé, 82, gaúcho, deixou de teclar reportagens nas redações por onde passou. Agora finca os pés nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai pérolas que se transformam em crônicas.