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Antenor e o chimarrão

Genro aprende sob olhar severo que cuia é de mão em mão

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção de Irene Araújo

Antenor, gaúcho de São José dos Ausentes, poderia muito bem andar de camiseta nos invernos de Porto Alegre. Mas, não. Tinha lá seus hábitos e pudores. Tradicional que era, carregava-os consigo junto à antiga cuia de porongo e um tanto de erva suficiente para uma invernada no lombo de um cavalo crioulo na lida com o gado. Não possuía muito estudo, mal assinava seu nome, mas palavra dada era no fio do bigode.

O homem, assim que chegou à casa da filha na capital, foi apresentado ao Solano, o genro, herdeiro de conceituada família da indústria paulista. Sem preocupações financeiras, o rapaz bem que poderia se dar ao luxo de nunca ter que acordar antes do meio-dia. Que nada, logo se meteu nos negócios da parentada e tomou gosto pela coisa.

Olho no olho, Antenor cumprimentou o marido da filha. Diante daquele homem feito, o velho chegou a imaginar que estava apertando a mão de um menino de não mais de seis anos. Solano, por sua vez, acostumado com a lida de gente, procurou disfarçar o incômodo provocado por aqueles calos. Diferenças à parte, não se notou agrura entre os dois tipos.

Na manhã seguinte, Antenor se levantou mais cedo do que o dia. Ainda sonolento, foi até a cozinha, colocou um pouco de erva na cuia, despejou a água quente, um hábito desde sempre. Espetou a bomba enquanto caminhou até a sacada do amplo apartamento. Sentou-se numa das cadeiras, nenhuma com pelego. Tomou o mate até o primeiro ronco. Agora, sim, Antenor se sentiu acordado.

Tentou olhar ao longe, mas o edifício bem em frente o impediu. Não havia horizonte para perder de vista por ali. Pensou em sair para dar uma volta, mas logo deixou tal ideia no canto. Sem a companhia de Poncho, a montaria de anos, talvez não soubesse retornar. Decidiu esperar alguém sair da cama. Que fosse a filha, que na certa lhe faria companhia pelo resto da manhã.

Entretido em pensamentos vazios, não percebeu quando alguém abriu a porta do apartamento. Era Iranilde, a empregada. Ciente de que os patrões dormiam até mais tarde, entrou na ponta dos pés e foi até a cozinha. Gaúcha que era, sentiu o cheiro tão familiar da erva. A mulher farejou até encontrar aquele homenzarrão. Quem seria? Curiosa, aproximou-se e, antes que pudesse se anunciar, foi notada por Antenor, que logo lhe ofereceu o mate, aceito de pronto e bom grado.

O par de última hora trocou algumas palavras, enquanto o porongo, de tempo em tempo, era compartilhado. Aquela era a primeira vez, desde que havia chegado a Porto Alegre, que Antenor sentiu alguma familiaridade com o ambiente. Iranilde, por conta das tarefas que ainda lhe aguardavam, levantou-se e retornou à cozinha, sendo acompanhada pelo homem.

Mesa posta, não tardou, lá estava a patroa ao lado do marido. Tomaram o café da manhã, enquanto Antenor jogava fora a erva usada. Trocaram olhares e poucas palavras, como se estranhos fossem. Talvez tentando se aproximar, a mulher puxou conversa com o velho.

– Pai, o senhor acredita que o Solano ainda não tomou mate?

Antenor, homem simples que era, nem por isso deixou de sorrir debaixo do bigode comprido, que lhe tapava metade dos lábios. Tratou logo de preencher a cuia com a erva e despejar a água quente. Bomba devidamente posta, entregou o porongo ao genro.

– Não mexa na bomba.

– Bomba?

– É o canudo, meu bem.

Solano, no primeiro gole, queimou o céu da boca e fez cara feia com o amargor do mate. Não querendo fazer desfeita perante o sogro, engoliu tudo sem reclamar. Em seguida, tentou devolver o porongo ao sogro, que insistiu.

– Beba até a cuia roncar.

Solano, apesar de querer cuspir tudo aquilo, entendeu o recado e bebericou todo o mate. Seu corpo, não acostumado com aquela quantidade de cafeína, começou a tremer. Antenor, bugre até o talo, nem por isso deixou de admirar o genro. Estava aprovado.

Os dias se seguiram sem quase animosidades. Solano até que passou a gostar da presença do sogro e, não raro, o instigava a contar sobre a vida no campo. Antenor, de bom grado, aceitava aquela aproximação. O jovem até comprou cuia nova, mas que ficou em desuso. Não se muda tradição de uma hora para outra, ainda mais diante de tamanha autoridade sobre o assunto.

Naquela manhã, uma manhã como as demais, lá estavam Antenor, a filha, Solano e Iranilde na cozinha. O velho, que acabara de preparar mate, chamou a empregada a se sentar ao seu lado. O homem tomou seu gole e, em seguida, passou a cuia para Iranilde, que, após beber, a repassou para a patroa. Esta pegou seu quinhão de mate e entregou o porongo ao marido.

Solano, já familiarizado com chimarrão, tomou um, dois, três goles. O rapaz, ainda com a cuia na mão, não percebeu o olhar de desaprovação do sogro. A esposa até pensou em lhe chamar a atenção, mas foi precedida pelo pai.

– Ouvi falar de um lá em São José dos Ausentes que morreu com um porongo na mão.

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