Relacionamentos
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Minha avó sorri, apesar do seu jeito alegre há algo de melancólico no sorriso.
— Eu nunca quis me casar. Diz ela.
— Como assim, vó? Dois netos perguntam quase em um coro.
Nesse momento me recordo do meu casamento, ela me olhava com um misto de sentimentos indecifráveis, eu podia jurar que por diversas vezes vi pena no olhar dela.
Como avó ela ajudou no enxoval, nas peças íntimas, dicas de cozinha, mas alguma dúvida ou receio a incomodava.
Jovem e distraída não dei atenção e muito menos parei para compreender.
No dia do casamento, ela acompanhou e ajudou em tudo, sentada no banco da frente da igreja católica, mesmo sendo evangélica, ela mantinha o olhar pensativo e novamente podia jurar que havia pena.
— Por quê? Pensei e acreditei estar errada.
Mais tarde na festa de recepção dos convidados, em meio às fotos, ela sorri e diz a minha mãe:
— Ela é uma noiva muito bonita, como ela está alegre e sorri.
Eu a abracei com todo carinho, entendi como um elogio e nunca mais pensei sobre, até aquele dia, um domingo de manhã, regado de mesa cheia, os netos à mesa ouvindo suas histórias e a confissão, eu nunca quis me casar.
— Eu não queria, eu trabalhava na roça, era uma menina muito alegre, capinava o dia inteiro cantando, então um dia meu pai chegou na lavoura e enquanto eu campinava ele disse:
— Você vai se casar.
Fiquei muito triste, mas eu não tinha escolha, passei dias em silêncio, enquanto eles agilizavam rapidamente a papelada em cartório. Encontraram um erro. Meu pai chegou em casa e disse a minha mãe, o cartório não quer casar ela, foi registrada como homem.
Minha avó tinha nome andrógino, ela continuou:
— Fiquei muito feliz, no dia seguinte cantei o dia inteiro, eu não poderia me casar, dia seguinte meu pai sai cedo e volta quase no horário de almoço, fizeram outra certidão para mim. Nunca mais cantei.
Ali eu entendi o olhar de admiração e pena, entendi que, diferente dela, eu tinha escolha, mas, apesar da escolha, o casamento representava um peso.
Poucos anos depois dessa escolha, aquela conversa e a lembrança do olhar de minha avó me volta com mais força, eu tenho escolha e escolho o divórcio.
Os anos se passaram, minha avó não está mais presente, mas seus conselhos, sabedoria e ensinamentos me guiam.
Enquanto curto um dia de praia, ouço de uma mulher.
— Você é doida, hoje em dia mulher não posta relacionamento, sou boba agora, passar vergonha em público? Já viu homem se relacionar, postar que tem namorada, que está com a gente? Deus me livre.
Não sei qual era o assunto, mas rapidamente a história da minha avó, a minha e de algumas amigas me surgem com força total.
Antes de dormi, vasculho a internet em busca de uma pesquisa feita por um conceituado banco que diz que as mulheres se envergonham de estar em relacionamentos.
Pego um trecho da pesquisa e posto em uma rede social, acordo com trezentos e sessenta e cinco comentários divididos entre mulheres que reafirmam a vergonha de assumir publicamente um namoro e os ataques dos homens às mulheres.
Após ler todos eles, penso:
“Relacionamentos sempre foram para mulheres?”
“Nossas avós não queriam se casar pelo alto preço do casamento, e nós não queremos por vergonha de assumir sozinha o lado emocional de uma relação antes e nos dias de hoje?”
Agradeço às mulheres do meu passado, às mulheres do meu presente, criamos laços profundos e boas relações entre nós, mas precisamos urgentemente repensar a formação masculina, a dificuldade para se relacionar.
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“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES.