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Vozes da Literatura

Gilberto Motta destrava o processo criativo

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

No universo da criação literária, poucos nomes conseguem traduzir a força da herança imaterial como Gilberto Motta. Nascido nos bastidores de um circo-teatro, ele encontrou nas artes cênicas e nos livros o terreno fértil para cultivar uma imaginação sem limites. Para o autor, a leitura precoce e o contato íntimo com os clássicos universais — como Machado de Assis e Guimarães Rosa — não são apenas bagagem, mas a própria argila que molda a sua voz narrativa, transformando cada releitura em um exercício contínuo de inspiração.

Abaixo, na entrevista exclusiva concedida à coluna Vozes da Literatura, o escritor reflete sobre como esse trânsito pelas obras fundamentais e a leitura crítica funcionam como verdadeiras chaves para destravar o seu processo criativo. Ele também desvenda como os impulsos filosóficos se entrelaçam com sua ficção, recusando dogmas morais em favor de referenciais libertários que desafiam o leitor a explorar as veredas da própria consciência.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Apenas casos excepcionais possibilitam escrever — fluente, criativa e reflexivamente bem — sem ler desde cedo. Comigo se deu assim. Desde que me lembro, a leitura me foi estimulada por meus pais e meu irmão. Nada rígido, sempre de forma lúdica e prazerosa. Pequenas aventuras, fábulas, muito Monteiro Lobato, Malba Tahan, Ziraldo, Maria Clara Machado… Nasci e cresci num pequeno circo-teatro e a nossa vida era centrada no fantástico, no espetáculo, na imaginação. Estudei em grupo escolar e depois em Instituto de Educação Estadual; basicamente em escola pública. Apenas no Terceirão/Vestibular e depois na Faculdade é que tive as primeiras experiências com instituições privadas de ensino. Os grandes clássicos me acompanham como leituras daquele tempo e ainda de hoje. Claro que, na época, ainda não eram clássicos para mim. Releio constantemente Dom Quixote, Moby Dick, Robinson Crusoé, os Romances de Cavalaria, os gregos, Shakespeare, Flaubert, Proust e essa galera clássica e os russos. Mas o que me pegou para sempre foi quando caiu em minhas mãos Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis, Ulisses, de James Joyce, Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Márquez, o Gabo e o maior de todos para mim, o Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa. Esses quatro jamais terminarei de ler. São eternos.

“Da Guarda do Embaú SC que me guarda, travo batalhas perdidas com os algoritmos e envio garrafas de náufragos”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Não creio nessa coisa de “bússola moral”, pois mais engessa do que liberta. Penso em influências, referenciais libertários, veredas de estímulos e desafios. Neste sentido, Nietzsche e Spinoza — por razões diferentes e às vezes contrastantes —, vieram em meu socorro na transição da adolescência para a “imbecilidade adulta”. Fundamentais junto com os contistas e cronistas e, sem dúvida, a fotografia e o cinema desde minha infância. E o inevitável: peguei o surgimento da TV nos anos 60 em rede nacional. Nos anos mais recentes, a internet e as redes “antissociais”. Portanto: uma feijoada completa entre o popular e o erudito, leituras e experimentações multifacetadas, criativas e diversificadas em conteúdo, gêneros e propostas. Na base sempre o desejo de investigar e contar a poética trágica do viver (VIVER PARA CONTAR, do Gabo e os filmes AMARCORD, de Fellini e DIAS PERFEITOS, de Win Wenders são fundamentais).

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Vivemos diversas guerrilhas semiológicas sobrepostas; em conteúdos e meios/ferramentas. Tudo num contexto veloz, efêmero, descartável e cada vez mais desumano. A crônica e o conto são preponderantes para mim. Eles “assustam”, surpreendem, desmontam esquemas pré-determinados e estimulam o (a) leitor/leitora a buscar suas próprias soluções para o que criamos como autores. A crônica das ruas, do mundo, dos “seres quase anônimos”. Isto me interessa. A gente encontra crônicas do João do Rio, de Machado, de Lima Barreto, de Clarice Lispector tão ou mais atuais em sintonia, forma e conteúdo quanto as que lemos hoje com Martha Medeiros, Antônio Prata, Luis Fernando Verissimo e vários de nossos colegas ótimos publicados aqui no Café Literário do Notibras. O vazio interno e coletivo aumenta cada vez mais e a internet, as mídias digitais amplificam tudo, porém a essência permanece no ponto cego do humano, o “demasiadamente humano” (Nietzsche).

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Vários anos depois de entrar na Cásper Líbero SP e cursar jornalismo é que percebi que o que me levou até lá foi a literatura, o rádio, a música, a fotografia e o cinema e não o contrário. Fiz de tudo na comunicação (jornal, revistas, rádio, TV e mídias virtuais hoje), mas jamais abri mão de ser um repórter, ou seja, um cronista. Reportar/narrar/contar. Aquilo a que chamamos de realidade já é por si só potente e autofágica. Engessa e limita. Criar, imaginar, transgredir e provocar são atitudes fundamentais e de primeira necessidade. Sem a ficção não há qualquer possibilidade de solução.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Hoje tudo é pós-verdade. Narrativas e reinterpretação de “um ponto de vista pessoal”, “lugar de fala”. Tempos de pós-verdades. Isto é um saco, insuportável. Escrever como quem chuta uma bola na vidraça do vizinho, entende… falta essa liberdade “irresponsável”. Aquela lá dos nossos sete, oito anos de idade… sem medo, remorsos, punições ou travas morais, sociais, teológicas, políticas. Difícil? Sim, sempre foi e já foi muito pior. É preciso estudar, investigar e ler e ler tudo o que conseguir ler e ver filmes, os clássicos; invadir o YouTube e os streamings e ouvir todos os sons e… e… e! Meter a imaginação para fora: Meta fora… metáfora (Gilberto Gil).

“A criação escrita é doce-amargo, como pássaros amanhecidos dançando em bandejas de doces romãs!”

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta 5 ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

O conhecimento, o estudo e o domínio das técnicas, sem dúvida, podem somar, ampliar e diferenciar autores e fazeres. E isto em qualquer área. Mas não apenas isso; quem pensa assim está numa sinuca de bico. Eu, assumidamente, pretendo seguir pelos anos que me restam de vida como um autor “amador”. E o que é um autor “amador” e/ou um autor “profissional”. Penso nestes recortes mais como rótulos, mercado, marketing, etc.

Entendo, sim, que a literatura é um FAZER constante, diário, muita transpiração e distância daquela ideia de inspiração romantizada. É a mão “na coisa”. Autor “amador”, sim, seguir como um AMANTE/AMADOR da literatura, do contar/narrar causos e h/estórias e saborear a poética da literatura: “A criação escrita é como pássaros amanhecidos dançando em bandejas de doces romãs!”, escrevi certa vez em um poema-de-concreto, Miragens.

“Engessou: tô fora! Definitivamente, aceito apenas ‘ditadura’ do leitor/leitora… e olha lá!”

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Como já argumentei no início da entrevista, não busco e nem valorizo esse lance de “lugar de fala”. Virou coisa de like nas redes. Babaquice. É preciso marcar posição, demarcar objetivos, estratégias, compromissos e limites quando refletimos, escrevemos e publicamos, sim, ok! Mas de leve. Engessou, tô fora. Definitivamente a única ditadura que aceito é a do (a) leitor/leitora. Não porque ela irá direcionar o que escrevo, penso e produzo. Não é isso. É porque aprendi cedo com o Umberto Eco, em Lector in Fábula (e com Rosa e Gabo e Calvino e decisivamente com o Glauber Rocha e toda a sua obra) que “uma obra só estará terminada no leitor/leitora; no espectador/espectadora… na fricção entre a criação da obra e a reflexão de quem está sendo tocado por ela”. “Você é um egocêntrico, um egoísta… escreve pra você mesmo!”, ouvi certa vez ao ministrar uma oficina de textos curtos e roteiros. E concordei, em parte, apenas respondendo: “Sim, assim como também eu Juro por Deus que eu sou ateu. Se você acredita, certo.”

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Escrever antes de tudo é um fazer/ofício extremamente pessoal e solitário. Isto não significa que seja um fazer criativo apenas egoísta e egocêntrico. Não. A criação coletiva e a realização em conjunto, em equipe são profundamente gratificantes. Há espaço para tudo. Aqui no Café Literário temos realizado alguns projetos coletivos com três e até sete colegas. Desde a criação temática, o desenvolvimento do argumento, roteirização e escrita final; e tudo pela internet trocando mensagens pelo WhatsApp e com algumas lives. Pensar a literatura como um coletivo cultural é fundamental, pois fortalece o pertencimento, a identidade de cada um e de todos. Mas prefiro cultivar isso como utopia e bem distante.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

A troca de experiências e visões de mundo reforça a importância do processo democrático no campo das ideias plurais e do fazer cotidiano de promover a educação em todos os sentidos. Paulo Freire desenvolveu esse princípio com perfeição, ações e alcances. Continuo acordando todos os dias às 6h, tomo café, fumo um cigarro e ligo o notebook depois de conferir as minhas anotações. E escrevo. É um método, um ritual, uma obsessão? Pode ser, as três opções. Porém, quando estou integrado a um projeto -por pequeno que seja – coletivo como escrever um poema, uma crônica, um conto, etc., sinto-me ampliado, mais arejado e desafiado. As propostas plurais, diversificadas, diferenciadas fortalecem a qualidade da criação, do processo de construção e dos “produtos culturais” que somos capazes de desenvolver.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Eduardo, o nosso menino Dudu é extraordinário. Escritor de ponta e editor, agitador cultural generoso e de qualidade. Não sou tão otimista quanto ele, porém, acredito que o novo sempre surge — e surgirá — para apagar incêndios com querosene; é fundamental aquela coisa de “merda no ventilador”. É preciso desafiar, manter o humor ácido, sarcástico até e “esperançar” (o que é bem diferente de apenas ter esperança, pois é verbo/ação). A internet, as redes “antissociais” são APENAS tecnologia: criadas por gente/ciência para serem apropriadas por gente/humanos. A droga da internet é que ela está dominada por grupos terríveis, nazifascistas e profundamente cafonas nos costumes, valores, cultura e comportamento.

“Escrevo porque respiro. Escrevo para não enlouquecer de vez”

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Pois então: escrever para não enlouquecer de vez. O Nietzsche já disse o mesmo sobre a música. E exercito essa prática todos os dias. Na primeira entrevista que dei aqui no Café Literário — há dois anos — para a querida Cecília Baumann, lembro-me de destacar: “Escrevo porque respiro”. Continuo acreditando nisso… E sugiro aqui um livro extraordinário de minha querida colega jornalista, escritora, pesquisadora de Florianópolis, Raquel Wandelli: “Existe, logo escreve: o inumano na arte-literatura”.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Nunca dividi muito bem esse lance de “carreiras polímatas”. Preferi viver — e vivo — a coisa do “Tudo ao mesmo tempo: aqui e agora!”. Circo-teatro, futebol, música, rádio de interior, TV, jornalismo, docência na universidade, etc. e tal. E especialmente no Brasil, na comunicação, o cara tem de ter conhecimento, disposição e coragem de encarar todas as demandas e desafios; mesmo sabendo que irá se f… na maioria das vezes. Então, o momento de escrever é A Hora da Estrela, o tempo mágico. É preciso suar muito, mas também relaxar e gozar…e muito!

“É tudo mentira, puro sarro e provocação”

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Sei lá!… se alguém souber aí, por favor, faça contato imediato de Terceiro Grau comigo. Talvez o Luizão (Luiz Schwarcz, da Cia das Letras) tenha pesquisa e ideia formada sobre o tema. Eu aproveito melhor o meu tempo e vida criando e escrevendo.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Romper a bolha, ampliar e oferecer oportunidades para a existência e deflagração geral do NOVO. O mercado… ORA, o mercado! O mercado é real, sim… mas é mais uma abstração humana. O deus-mercado não existe — e muito menos o editorial. Creio bem mais na coisa do Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas… “é o diabo no redemoinho no meio da rua”. Pois é: o que existe mesmo é o diabo-homem, doutor!

“Desejo apenas que leiam e ressignifiquem, reinventem tudo o que eu escrevo”

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Sei lá, sei não! Esse lance de “única mensagem”, de “máximas” eu creio que terminam como “mínimas”. Desejo apenas que leiam e leiam e ressignifiquem, reinventem tudo o que eu escrevo… É tudo mentira, puro sarro e provocação. E escrevam! No mais, é como a Clarice Lispector exclamando diante da mulher tentando destrinchar a galinha na mesa de refeição em Laços de Família: “É uma luta desigual”.

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