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Fenômeno social

Goffman e a pessoa que diz “sou assim mesmo”

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma frase que deveria ser estudada como fenômeno social:

“Eu sou assim mesmo.”

Geralmente aparece depois de alguma grosseria.

Ou de uma ausência.

Ou de uma irresponsabilidade.

Ou depois de alguém dizer algo que não deveria.

É uma frase extraordinária porque transforma um comportamento em identidade e, de quebra, encerra a discussão.

“Sou assim mesmo.”

Pronto.

Caso encerrado.

Goffman provavelmente ficaria interessado nessa pequena declaração de identidade porque ela elimina justamente aquilo que sua sociologia nos ajuda a perceber: somos diferentes conforme as situações, os papéis, os contextos e as relações.

Ninguém é exatamente igual o tempo inteiro.

Somos filhos em uma casa, profissionais em um escritório, amigos em uma mesa de bar, professores em uma sala, desconhecidos em um elevador.

Mudamos.

Adaptamo-nos.

Negociamos.

Representamos.

Isso não significa necessariamente falsidade.

Significa vida social.

O problema é quando alguém utiliza “sou assim mesmo” como licença para não refletir sobre os efeitos do próprio comportamento.

Porque personalidade não deveria ser álibi.

Ser sincero não dá direito à crueldade.

Ser espontâneo não transforma grosseria em virtude.

Ser direto não elimina responsabilidade.

E dizer “eu não sei demonstrar afeto” não obriga ninguém a aceitar negligência afetiva.

Talvez exista uma diferença entre autenticidade e comodismo.

Autenticidade é reconhecer quem somos.

Comodismo é acreditar que não precisamos mudar nada.

E talvez a maturidade comece justamente quando percebemos que podemos ser responsáveis por aquilo que fazemos sem precisar transformar cada crítica em ameaça à nossa identidade.

Afinal, se “sou assim mesmo” fosse argumento suficiente, ninguém precisaria amadurecer.

E a humanidade provavelmente ainda estaria morando em cavernas, justificando tudo com a mesma frase.

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