Curta nossa página


Laboratório social

Goffman nunca pegou um elevador

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Tenho quase certeza de que Goffman nunca morou em prédio.

Se tivesse morado, teria escrito um capítulo inteiro sobre elevadores.

Porque não existe laboratório social mais eficiente.

São poucos metros quadrados ocupados por desconhecidos tentando desesperadamente fingir que não perceberam a existência uns dos outros.

É um acordo silencioso.

Todos olham para o número dos andares como se ele escondesse os grandes mistérios da humanidade.

Ninguém sabe exatamente onde colocar as mãos.

Há quem escolha o celular.

Há quem descubra, naquele exato instante, um interesse profundo pela própria unha.

Há quem simplesmente aceite o constrangimento como parte da experiência humana.

Goffman chamaria isso de administração da impressão.

Eu chamo de sobrevivência.

Outro dia encontrei um vizinho.

Ele entrou no elevador com aquela cara que todo mundo reconhece, mas ninguém pergunta.

Olhos cansados.

Silêncio demais.

Pediu para descer comigo e com Milton até a praça.

Fomos.

Sentamos num banco.

Ficamos olhando a lua.

Como toda pessoa absolutamente despreparada para lidar com o sofrimento alheio, resolvi cantar:

“A lua me traiu…”

Ele começou a chorar.

Na minha cabeça, eu estava oferecendo acolhimento.

Na prática, quase transformei a praça num consultório sentimental.

Desde então, desconfio que não nasci para ser terapeuta.

Nasci para ser aquela amiga que piora a situação antes de melhorar.

Ainda assim, gosto de pensar que existe uma beleza estranha nisso.

Nem sempre sabemos o que dizer.

Às vezes, só sabemos permanecer.

A Sociologia costuma ensinar que toda interação possui regras.

Mas ninguém escreve um manual sobre o que fazer quando alguém chora.

Não existe protocolo.

Durkheim falava da força dos vínculos sociais.

Favret-Saada lembrava que certas experiências só podem ser compreendidas quando nos deixamos afetar.

Talvez seja exatamente isso.

Ser afetado.

Não resolver.

Não explicar.

Não oferecer frases prontas.

Apenas dividir o banco da praça.

Olhar a lua.

Esperar.

Tenho pensado que crescemos acreditando que maturidade é sempre saber o que fazer.

Hoje suspeito exatamente do contrário.

As pessoas mais maduras que conheço costumam dizer muito pouco.

Elas aparecem.

Levam um chá.

Fazem um café.

Sentam ao lado.

Perguntam se você quer companhia.

Depois respeitam até o silêncio.

Milton, por exemplo, entende isso perfeitamente.

Enquanto nós inventamos palavras sofisticadas para explicar o cuidado, ele simplesmente encosta a cabeça na perna de quem parece triste.

Nenhum doutorado.

Nenhuma teoria.

Só presença.

Talvez por isso os cachorros nunca precisaram estudar Goffman.

Eles já compreenderam aquilo que nós passamos a vida inteira tentando aprender.

No fim, viver em sociedade talvez seja exatamente isso.

Encontrar alguém no elevador.

Descer até a praça.

Olhar a lua.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.