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Silêncio dos inocentes

Golpistas frustrados passam carnaval em beliche de concreto

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

No Carnaval de 2020, mais precisamente em março daquele ano, médicos, infectologistas e governantes sérios começavam a temer as consequências da ainda desconhecida Covid-19. No ano seguinte, nada de marchinhas, blocos, escolas de samba e máscaras, muito menos suor e cerveja. Fazendo pouco caso das recomendações da Organização Mundial de Saúde, desde o início o presidente da época tratava a doença com uma “gripezinha” e pedia para o povo continuar vivendo como sempre viveu. Ou seja, vamos escancarar. O resultado foi de mais de 700 mil mortes. Nada que incomodasse o capitão. Em 2022, tivemos o Carnaval fora de época. Quem não se lembra que o desfile das escolas cariocas só ocorreu no fim de abril?

Nesses dois anos, pensadores e filósofos diziam que o mundo e o comportamento da humanidade não seriam mais os mesmos depois da pandemia. Com o Brasil já sob nova direção, a folia de 2023 bateu recorde de público em diversas cidades do país. Contrariando os céticos, os otimistas viam as grandes perdas e sacrifícios anteriores como bases para as mudanças que começavam a acontecer. E elas não foram só para inglês ver, como insistem as viúvas do bolsonarismo marrom. Só não as enxergam quem não as quer vê-las. Aí é uma questão de foro íntimo. A expectativa é a de que as cinzas do fracassado golpe pré-Carnaval de 2023 sejam definitivamente jogadas na Baía de Guanabara, no Lago Paranoá ou no Rio Tietê na quarta-feira. Quem sabe antes.

Tudo pode acontecer, menos o nada. Dois enredos já programados para 2025, o bicho pegou e a casa caiu são expressões que viraram bombas de efeito retardado sobre as cabeças desplugadas da turma supostamente inteligente que mantinha abertas as asas de Jair Bolsonaro. Supostamente porque nem os meninos do Maternal I seriam tão amadores a ponto de gravar em vídeo articulações golpistas contra a escola e contra a coitada da professora. Eles fizeram isso. Certamente esquecendo que os russos estavam por perto, produziram aviões cargueiros Tupolevs de provas contra todo o grupo. Agora, pelo menos para os 40 alvos da Polícia Federal, o Carnaval de 2024 será de limpeza de cuecas assoreadas por dejetos com identidades e CPFs conhecidos.

Não só para eles. Como diz o poeta do absurdo, os demais membros do Caranguejal estão com o furico na seringa e bem próximos do recolhimento pelo caminhão cata golpistas da PF. Para esses, sobrou alguns versos da marcha Até quarta-feira, gravada por Marcos Moran para o Carnaval de 1968: …Não tem problema/Ninguém morreu/Mas este ano, meu bem, tá combinado/Nós vamos brincar separados… Enfim, desde a quinta-feira (8) os antigos reis dos camarotes estão se acostumando às simplórias acomodações com beliches de concreto armado. Deixo claro que a forma do beliche não é nenhuma alusão ao presidente do Partido da Latrina (PL), Valdemar Costa Neto.

Apesar dos apelos de internautas à fé e dos pedidos de convocação de novas alas bélicas, para tristeza da Escola de Samba Patriotas Desvairados até mesmo o bloco dos Kids Pretos terá de esperar por carnavais com céus menos cinzentos e mares menos revoltos. De novo, nenhuma alusão ao almirante que comandou a Marinha na gestão de Jair Messias. Embora no vídeo divulgado pela PF não haja referência alguma ao termo golpe, nem aqueles meninos do Maternal I têm dúvida de que a reunião ministerial comandada por Bolsonaro não foi convocada com rebeldes intenções. Não falaram em motim, mas respiraram insurreição, planejaram o levante e sonharam com a revolta. Na minha terra, todos esses vocábulos são sinônimos de golpe.

Portanto, ainda que os nada inocentes sentados à frente do presidente mandão (alguns com patentes superiores ao chefe supremo) tenham optado pelo silêncio dos inocentes, a empreitada golpista só deixou de ser consumada após a voz grossa dos generais que não aceitaram a subordinação a um militar que só não foi expulso do Exército por causa do espírito de corpo do Superior Tribunal Militar (STM). Em sessão secreta de quase dez horas no dia 16 de junho de 1988, a maioria dos ministros da Corte militar considerou insuficientes as provas que haviam condenado Bolsonaro por atentados à bomba. O tempo passou e a hora da verdade chegou. Chegou, surpreendeu, incomodou, pulverizou mentiras e patentes e acabou com o Carnaval da turba do cercadinho. Como atrapalhou também a folia de jornalistas, advogados, assessores do ministro Alexandre de Moraes e de policiais federais, me associo à tese daqueles que defendem pena máxima para os golpistas: o xilindró e a obrigação de torcerem pelo Vasco da Gama até o fim de suas vidas.

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