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I’m not dog no

‘Gosto das inglesas, mas adoro meu português’

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Está escrito no artigo 13º. da Constituição de Ulysses Guimarães que o idioma falado, radiofonizado e televisionado do Brasil é o português. No entanto, em sete dos oito editais do Concurso Nacional Unificado, o Enem dos concursos públicos, não consta a língua portuguesa. Equívoco do governo ou está declarado que o português está descartado no país? Para alguns brazucas, a inclusão do artigo na Carta Magna foi excesso de zelo dos constituintes. Segundo eles, a desnecessidade da norma está na obviedade do patriotismo do povo e no amor exacerbado à pátria. Verdade a ser confirmada, mas vá lá. Conheço pessoas – e não são poucas – que amam tanto o Brasil que partiram sem aviso prévio, mantêm residência no exterior e gastam fortunas para aprender inglês, francês, italiano, alemão e até japonês.

Tudo bem que novos idiomas sirvam para contatos com outros povos em viagens de negócios ou de turismo. A esfarrapada justificativa é válida, mas exagerada, na medida em que nenhum estrangeiro faz questão de aprender o português para visitar a Terra Brasilis. Falam a língua nativa e o brasileiro que se vire. Antes de dizer que, por aqui, as normas nada valem, lembro que o Brasil é o único dos 165 países a ter incluído tal ordem na Constituição. Sobre não seguirmos as leis (nem as divinas), basta consultar os Dez Mandamentos da Bíblia. Entre outras ordens, o decálogo bíblico pede para que o homem não mate, não roube e não cobice a mulher do próximo. No Brasil, nenhum deles tem sentido prático, principalmente o último.

O fato é que, faz algumas muitas décadas a língua inglesa se instalou de mala e cuia entre nosotros. Muito mais do que necessidade, virou modismo para a maioria dos brasileiros comuns. Os aristocratas talvez precisem mais dela do que os próprios ingleses, norte-americanos, australianos e neozelandeses, alguns dos povos que não abrem mão de usar sua língua oficial onde estiverem. Com a nova nomenclatura de patriotismo, nem sei se sou mais patriota. No entanto, como a turma do Primeiro Mundo, uso sempre meu idioma natal em qualquer canto do mundo. Se não me entenderem, não gasto. Simples assim.

Quanto aos demais brasileiros – e não são poucos -, antes mesmo do domínio mínimo do dialeto herdado de Cabral, eles atingem orgasmos múltiplos quando conseguem cantar sem embromation uma das dezenas de canções de Elton John, Madonna, Rihanna, Lady Gaga, Diana Ross ou Beyoncé. É o povo que adora o que não entende e confunde o que deveria entender. Por exemplo, troca “…tocando B. B. King sem parar…” por “…tocando de biquini sem parar…”, “…Eu perguntava: ‘Do you wanna dance?…” por “…Eu perguntava tudo em holandês…” e “…Entrei de gaito num navio…” por “…Entrei de caiaque no navio…” Coisas improváveis de ocorrer, mas na cabeça de quem só pensa em inglês tudo acontece. Eita povinho falso e curioso.

Erra letras em português, mas adora anunciar publicamente que conhece todas as músicas do cantor estadunidense B. J. Thomas. Aliás, só para registro, o inglês aprendido por aqui é quase todo originário da Casa Thomas Jefferson. Tá explicado. Talvez associem o cantor com o terceiro presidente dos Estados Unidos. Reitero que cada um é cada um. Ainda que esteja longe do português castiço, não troco eu amo você por i love you, boa tarde por good morning, tampouco denomino de girl ou de boy nossos brazucas femininos e masculinos. Substituir interjeições do tipo oxente, vish, oloco e égua por strangeness ou surprise nem pensar. E o que dizer do clássico VTNC, expressão usada pela plebe e pela elite marvel (maravilhosa) quando querem mandar um desafeto correr para o mato em busca de tomate cru. Essa é cria nossa e ninguém tasca. Tentam copiar, mas, no máximo, “abreveiam”.

Para os gringos, nosso célebre VTNC virou will take it in the ass. Feio e difícil de se pronunciar. Tão feio com sit on the dool, apelidado por nós de senta na boneca. Embora esteja meio desatualizado da prática, confesso que, vindo da língua inglesa, o que aprecio realmente é o fuck. Não sou catedrático no assunto, mas diria que fuck fuck é uma coisa do outro mundo. Por nojo de um e respeito aos outros, não comento nada a respeito do dick ou dos fags. Está claro que não sou adepto do estrangeirismo. Sou do tempo do Samba do approach, mas, como tenho background, prefiro o borogodó, o ziriguidum ou balacobaco. Se querem saber, além do yes e do you, me amarro “mermo” é no I’m not dog no. Antes que pense novamente nas festivas tardes de um rendez-vous, acho que devo me render à sugestão de Gabriel, O Pensador e, por meio da canção 2345meia78, sair em busca de uma crush. Gosto que me enrosco de uma crush, mas ainda prefiro o Crush, refrigerante de laranja da minha gostosa juventude. Sem a mania do inglês.

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