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Autocrítica meteórica

Governo Bolsonaro transforma sonhos utópicos em pesadelos

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto de Arquivo/Antônio Cruz

Nesses últimos três anos e nove meses, pelo menos dois terços da população brasileira – cerca de 80 milhões de pessoas – torceram ansiosamente por uma boa notícia. Na verdade, aguardaram um acontecimento que fosse benéfico ou próspero. Chamamos a isso de expectativa. O outro terço conviveu pacificamente com o termo antagônico, a realidade, pois sabe que os desejos aguardados eram (e são) irrealizáveis. Mas quais seriam essas aspirações? Nada além de uma excitação temporária desse expressivo nicho do eleitorado, que, nesse período, sempre imaginou um presidente de todos, um mandatário altruísta, desapegado do materialismo, despretensioso, abnegado e, sobretudo, inspirado.

De tão sonoro, o slogan Brasil acima de tudo, Deus acima de todos lembrava um lubrificante definitivo para a volúpia do povo contra as tentações da corrupção, em benefício da paz e, porque não dizer, em favor da castração daqueles que ousassem se insurgir contra as liberdades. A menos de 20 dias da eleição que, antecipadamente, poderá dar novos rumos ao país, acordamos desse sonho dourado e percebemos que a excitação não passou de fantasia. Talvez uma louca quimera indicando um devaneio impossível de ser alcançado. A utópica ilusão se desfez tão rapidamente como surgiu. Depois de uma meteórica autocrítica (durou menos de 24 horas), o profeta e pregador da maldade voltou a agir. E, para surpresa de alguns, em rede nacional. Inicialmente, a pedido do cão dominador, a matilha raivosa, representada por um deputado paulista de meia tigela, novamente se insurgiu contra a jornalista Vera Magalhães.

Parece o efeito cascata do desespero pela iminente derrota. Antes das agressões à jornalista, o que seria um bate-papo, isto é, perguntas e respostas, foi transformado em palanque. Refiro-me ao Programa do Ratinho dessa terça-feira (13), uma velha tribuna bolsonarista do diga e faça o que quiser. À vontade, o presidente candidato parece ter confundido o programa com um show fora de hora, um horário político espetaculoso. Falou, falou, falou e não foi interrompido. Nenhuma novidade, mas isso é um problema futuro da Justiça Eleitoral. Vamos ver se Ratinho também agirá assim com os demais presidenciáveis. O fato é que em lugar algum ele teria espaço para novamente colocar condicionantes para aceitar o resultado do dia 2 de outubro, entre elas a necessidade de eleições limpas. Colocou. De novo o desespero de causa.

Considerando que o sistema é exatamente o mesmo que o elege há décadas, que sujeira tanto o preocupa? Talvez as tentativas fracassadas de buscar mecanismos capazes de inseminar criminosamente as urnas eletrônicas. Como se isso fosse possível. Mesmo com toda a parcialidade do bolsonarista Carlos Massa, o Ratinho, nada mudou no cenário político sombrio de Jair Messias. Seu potencial concorrente continua marchando bem à frente. Daí o rompimento com as autocríticas do dia anterior ao programa, quando chegou a dizer que, caso derrotado, entregaria a faixa e se recolheria.

Quase pediu desculpas às mulheres, gays e jornalistas pela série de falas misóginas, homofóbicas e ameaçadoras. Para sorte da nação, muitos já se conscientizaram do desatino cometido em 2018 e preferiram dar à fábula do mito acima de qualquer suspeita ares verdadeiros. O encantamento inicial acabou. A lenda, a invenção, permanece teimosamente sólida entre o terço do ódio. Afeitos a desvarios, caprichos e venetas, esses farão de tudo para consolidar a realidade antidemocrática pregada pelo líder das mentiras. Eles realmente não sabem o que dizem. Defendem a ditadura e idolatram autocratas como a encarnação de Judas.

Pior é quando afirmam que, nas eleições deste ano, estará em jogo a liberdade do povo. Que liberdade? A da incoerência e das mentiras? A de obedecer cegamente ao líder de um sistema ditatorial? Prefiro cem mil vezes o regime da pilhagem. Pelo menos éramos felizes. Melhor é que sabíamos e não imaginávamos a tristeza de uma nação em que o herói do povo é um déspota. Por tudo isso, melhor expurgarmos o bufão. Do italiano bufone, bufão é um personagem fanfarrão, do tipo transgressor das regras sociais e que utiliza muito do desprezo e da ironia em suas representações. É a ficção italiana misturada à realidade brasileira.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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