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O preço da inveja

Greta, a boneca de porcelana

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Não faz muito tempo… Hum… Três, quatro meses? Bem, não sei ao certo, mas não importa. Comprei por impulso uma boneca em um antiquário. Não que eu tenha desejos por bonecas, não os tive quando menina, não seria a essa altura do campeonato que eles iriam atormentar a minha existência.

Bege, completamente bege, caso não fosse por um rosado nas faces, o avelã nos olhos e aquele vermelho um tanto suspeito nos lábios. Cabelos presos em um coque, rosto levemente inclinado para cima, sorriso mais discreto que o da Monalisa. Ela me fisgou, como se fosse a versão em porcelana da jovem que fui.

Enquanto caminhava com a boneca cuidadosamente embrulhada em jornal velho, comecei a imaginá-la sobre a estante da sala. Quando recebesse alguém, certamente todos iriam se encantar com a… Precisava de um nome. Mas qual? Adelaide. Não. Margarete? Hum… Greta. Sim, Greta.

— Que boneca maravilhosa, Rosana.

— Ah, é verdade. A Greta foi presente de um embaixador russo.

— Greta? O nome dessa boneca é Greta?

— Greta Garbo.

— Nossa! Que chique!

Sucesso total carregado de inveja alheia. E a Shirley?

— Rosana, onde você arrumou essa lindeza?

— Ah, mandei trazer de Paris.

— De Paris? Deve ter custado uma fortuna.

— De Paris sim, minha amiga. Nem queria comprar, mas insistiram tanto.

— Pois nem me fale o preço, que posso cair pra trás.

— Uma bagatela. Cinco mil reais.

— Cinco mil?

— Barato, né?

— Mulher, por acaso tu tá assaltando banco?

— Já te contaram?

Ah, como seria bom ver a cara daquela metida que não tem onde cair morta. Dez mil. Não! Quinze. Dezoito mil, setecentos e sessenta e sete reais, fora as taxas. Aposto que a Shirley iria devorar as próprias entranhas de ódio.

Abri a porta e, antes de entrar, dei uma boa olhada na sala. Precisaria empurrar um pouco a estante para que a estátua ficasse bem visível assim que alguém entrasse. Meio metro ou um tanto mais.

Desembrulhei a Greta, passei uma flanela para tirar a poeira. Com cuidado, a depositei no vão mais alto da estante. Senti o sorriso percorrer todo o corpo e logo imaginei a Salete com aqueles olhos arregalados.

— Mulher, que riqueza de boneca!

— Tu acha?

— Lógico que sim, Rosana.

— É bonitinha.

— Bonitinha é apelido, minha filha! Essa boneca deveria estar num museu.

— Não vendo.

— O quê?

— Não vendo, não dou, não troco, não faço catira. Foi presente do desembargador.

— Desembargador?

— É.

— E tu agora deu pra andar com esse da alta?

Peguei a toalha e fui tomar banho. Virei o rosto para o chuveiro, que lavou a minha alma de tanta inveja daquela gente. Exausta, mal me deitei, o sono me pegou de jeito.

Na manhã seguinte, xícara na mão, contemplei a Greta por praticamente meia hora até que a urgência do dia a dia me puxou de volta para a vida. E foi nessa correria que a boneca foi esquecida debaixo de tantos compromissos.

Sexta-feira passada, ou melhor, já era sábado quando cheguei de mais uma confraternização com os colegas do Banco do Brasil. Temos o hábito de, acabado o expediente, dar aquela esticada no Bar do Bosco. Bebi um tanto mais do que de costume, mas nada que comprometesse a minha sanidade mental.

Girei a maçaneta e dei de cara com a Greta Garbo, que me sorriu. Acredite! A boneca de porcelana sorriu aquele sorriso de Coringa, depois girou a cabeça para o lado e, em seguida, me encarou com aqueles olhos de caramelo.

Se fiquei assustada? Não digo que sim nem que não, mas algo me fez dar dois ou três passos graúdos para frente e taquei a mão naquela desgraçada, que se espatifou no chão. Como não sou de adiar obrigação, peguei a vassoura e a pá de lixo. Juntei os cacos e joguei na lata do lixo. Pois sim! Na minha casa não, violão!

E foi assim que tudo aconteceu. Estava bêbada? Não nego. Tenho como provar? Não tenho. Vai duvidar?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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