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Fogueira das vaidades

Guerra das togas deixará as escadarias do Supremo molhadas de sangue

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Os efeitos da era Jair Bolsonaro na Presidência da República continuam saindo pelo ralo das instituições brasileiras. O Congresso, de maioria bolsonarista, é um pardieiro, algo bem pior do que uma casa de lenocínio. Dos parlamentos estaduais também evaporam excrementos que não cabem mais entre as quatro paredes dos suntuosos palácios. Mesmo guardadas a sete chaves, das entranhas do Poder Judiciário de primeira e segunda instância surgiram fantasmas fantasiados com penduricalhos dos mais variados, os quais andam povoando pequenos, médios e grandes tribunais.

Na lista terrivelmente desonesta dos poderes do país, a extrema-direita tem conseguido avançar alguns degraus para alcançar seus adversários mais ferrenhos. Até que me provem o contrário, tudo por conta da iminente derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições de 4 de outubro. Desviar o foco do presidenciável do Partido Liberal e suas negociatas com o banco Master de Daniel Vorcaro me parece ser o caminho defendido pelo comando da campanha e, obviamente, comprado por setores do Supremo Tribunal Federal.

Enquanto os pingos permanecem fora dos is, o fato é que a dúvida a respeito da seriedade da conduta dos magistrados e da lisura das decisões definitivamente chegou ao STF. Não sei se por manobras escusas ou por má conduta, o ministro Alexandre de Moraes, comumente acusado de perseguir o clã Bolsonaro, também caiu na rede de Vorcaro. Na ação relatada pelo ministro André Mendonça, segunda indicação de Bolsonaro para a Corte Suprema, Moraes é citado pela Polícia Federal devido a troca de mensagens com Vorcaro, um contrato milionário e discussões sobre um fórum em Londres.

Devidamente explorado pelas mídias adesistas e sempre simpáticas às causas bolsonaristas, o batom na cueca de Alexandre de Moraes seria um contrato de prestação de serviços orçado em R$ 129 milhões entre o escritório da advogada Viviane Barcio de Moraes, mulher do ministro que prendeu os golpistas, e o Banco Master. Além disso, a PF encontrou no celular de Vorcaro menções a encontros com Moraes em Campos do Jordão (SP) em abril de 2025. A ideia de Mendonça de incluir Moraes no processo do Master incendiou o Supremo.

Restrito até bem pouco tempo aos bastidores da Corte, as labaredas prometem chamuscar a gregos, baianos, evangélicos e umbandistas. Na disputa interna pelo comando, o fogaréu espalhou acusações mútuas de interferência e desconfiança, com reflexos óbvios sobre a eleição que se avizinha. É claro que, a exemplo de Pompéia Sula, a mulher do imperador romano Júlio César, a Alexandre de Moraes não basta ser honesto. Ele tem de parecer honesto. Para os Bolsonaro e para os bolsonaristas, incluindo representantes do Judiciário, as ações do ministro sempre foram duvidosas.

O tempo dirá se a razão e a verdade estão com Mendonça ou com Moraes. O problema é que, por conta da guerrinha pelo poder absoluto, a tendência é que as excelências de toga joguem a Corte Suprema na vala comum dos escândalos nacionais. Pelo sim, pelo não, a fogueira da vaidade ainda expelirá muita fumaça em volta da Praça dos Três Poderes. Esticaram tanto a corda que uma das correntes, supostamente majoritária, acusa publicamente Mendonça de desvio de finalidade e de abuso de autoridade na ação do Master, inclusive com a possibilidade de um pedido formal para afastá-lo da relatoria.

Como leigo, aposto que, independentemente de quem vença a batalha, será o início do fim da credibilidade do Supremo Tribunal. Com a palavra o presidente do Tribunal, ministro Edson Fachin. Só para lembrar os que gostam de pensar no futuro, a partir do dia 22 de março de 2027 Alexandre de Moraes será o próximo presidente da Corte. Não é nada, não é nada, mas é ele quem vai dar as ordens. O chumbo grosso partiu somente da bazuca de Mendonça. Aguardem a metralhadora de Moraes. Como diriam os mestres abstratos do poder, até lá alea jacta est. Antes do último pênalti, o sangue deverá tingir as escadarias de mármore do STF.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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