Saudade
Gustavo, a avó e Deus
Publicado
em
Senti amor por minha avó-materna, um amor que jamais experimentei ao longo dos meus 76 anos, completados há três dias. No entanto, a decepção por ela me tomou no dia em que mamãe me contou que sua mãe nunca mais voltaria, pois teria ido morar com Deus.
— Mas, mamãe, a vovó não me ama mais?
— Ama, Gustavo, mas Papai do Céu a chamou pra morar com ele.
— A vovó? Por que não chamou outra vovó. O Jorginho tem duas, agora não tenho nenhuma.
Tinha eu lá meus 10 anos, num tempo em que meninos dessa idade ainda acreditavam em tolices ditas por adultos na tentativa de apaziguar os corações infantis. Não os culpo, pois já me peguei fazendo coisas do tipo, como se as metáforas fizessem parte do ser humano.
Não sei se foi rancor que se abateu sobre mim. Talvez o sentimento tenha sido mágoa. Não de Deus, que sempre me pareceu um ser abstrato, que não fizesse parte do meu dia a dia, ainda que fosse algo que conhecia de nome: “Vá com Deus, meu filho!”, “Graças a Deus que deu tudo certo!”, “Não fique assim, Gustavo, Deus não quis por um bom motivo,”
— Mas, mamãe, que motivo?
— Não pergunte, meu filho. Deus sabe o que faz.
Pois é, segundo a minha mãe e tantas outras, Deus sabe o que faz. Mas que diabos ele tinha que levar justamente a minha avó para morar com ele? Ele não tem coração? Afinal, eu era apenas um garotinho que queria a vovó de volta. E por que ela teria aceitado ir morar com Deus? Bem verdade que quando a casa estava cheia, era pouco banheiro para aquele monte de gente da família.
Lembro-me especialmente de um domingo de macarronada na casa da minha avó. Tio Gerson, o queridinho de todos, passou horas confabulando no banheiro por conta de algum exagero ou, hoje não descarto, alguma virose. Desse modo, o outro banheiro, na verdade um lavabo, foi o único recurso para as 14 pessoas da família.
Minha avó, sempre muito resiliente, ainda mais com o filho que penava sentado no vaso, pediu para os homens, caso fossem apenas fazer xixi, que se dirigissem para o quintal, onde havia um pequeno bosque com mangueiras, goiabeiras e um pé de abacate. Ninguém contestou a sua autoridade, ainda mais depois de fazer uma revelação que, até hoje, guardo como aprendizado:
— Além de não gastar água da descarga, o xixi ainda é adubo gratuito.
Foi com meus 12 ou 13 anos que descobri esse perturbador fenômeno que a todos, sem distinção, alcança. Dona Veridiana, uma das avós do Jorginho, também recebeu um convite para ir morar com Deus. Bem, ninguém que me recordo disse dessa forma. Sem metáforas, como se a crueza da morte fosse mais fácil de ser suportada quando acontece com entes queridos de outrem.
Nessa época fiz as pazes com vovó, que soube ter o coração fraco. Coisas dos meus parentes e de tanta gente. Sinto a sua falta e, ao me olhar no espelho, constato que estou cada vez mais parecido com ela. Criança nenhuma deveria perder a avó. Papai do Céu não é tão bom como dizem.
……………………
Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
Compre aqui
https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho